quarta-feira, novembro 6

UMA RELAÇÃO É UM FILHO PRIMOGÊNITO

Quem não sabe fazer ensina. Velha máxima dos escritores da qual eu, embora não sendo um deles, me vou apropriar esta noite. Não versarei sobre talento ou escrita mas sim sobre a minha velha e martelada tecla; as relações, a sua dinâmica, os sucessos e os fracassos.

Desde há uns anos que tento escrever sobre uma relação feliz. Houve uma época em que me iludi e julgue-me apto para o fazer. Cometi até a idiotice de ler livros profissionais, mas logo me esvaziei e percebi que nada percebo de relações. Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de uma relação feliz. Parecem-me que são desaconselháveis os conselhos que posso dar, mas reservo-me ao único direito que realmente prezo na constituição: o direito de asneirar.

Uma relação é um filho. Um filho inteiramente depende dos dois. Se se separem, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade. Quando esse filho é amado por ambos os companheiros – que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo – a relação é feliz. Não basta que os membros do casal se amem um ao outro, têm também de amar a relação que criaram.

Uma relação só pode ser vivida de uma maneira – que é a relação em si – nada é exportável, não há bocados da relação que possamos levar connosco, caso ela acabe.

Uma relação é um filho carente, por vezes insuportavelmente birrento e outras enfadonhamente calmo. Mas um filho que dá mais prazer que trabalho. Dá-se de comer ao filho e o organismo dele faz a parte mais difícil, embora automática, de converter o alimento em crescimento e saúde. Também a relação precisa de ser alimentada, mas faz sozinha o aproveitamento do alimento que lhe damos. Por vezes adoece e tem que ir às urgências. Mas com o crescimento há cada vez menos urgências e lidamos com elas de forma mais tranquila.

Se calhar os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar o primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é a relação deles. É o irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. Se o primeiro filho que nasce for considerado o primeiro, pode apagar a relação ou substitui-la. Se a mãe está dedicada e focada no filho de carne e osso, o pai, em vez de se queixar da falta de atenção deve dedicar-se a cuidar do mais velho; da relação deles, mantendo-a romântica e atenciosa.

Ao contrário dos outros o primeiro filho nunca sai de casa. Fica para sempre. Vale a pena cuidar dele. E ao contrário dos outros filhos desaparece para sempre com a maior das facilidades e a mais pequena das desatenções.

Os livros chatos que li dão a ideia que uma relação feliz dá muito trabalho. Mas se dá muito trabalho como pode ser feliz? Talvez porque esses livros dão a ideia que as relações são concessões e transacções em ambas as pessoas embarcam para conseguirem continuar juntas sem serem infelizes. Que coisa aborrecida!

Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão, mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é ficam a ganhar por muito que tenham perdido. O que recebem do petiz compensa tudo o que lhe deram. É o sacrifício melhor recompensado.

Também numa relação feliz cada um pensa que tem mais a perder que o outro se a relação desaparecer. Sentem que se isso acontecer ficam sem chão e sem nada. Mas se a relação for pensada como uma troca vantajosa – tu dás-me isto e eu dou-te aquilo –, até pode ser feliz mas não é de amor. De amor é – eu dou-te e não espero em troca –, nem biscoitos se tu os não deres por tua livre iniciativa.

E agora vem a parte em que podem perceber a razão do primeiro paragrafo e ainda que estes conselhos de nada valem – porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se com a pessoa que se ama mesmo que ela não nos ame. Afinal é preciso ter-se uma grande alma e uma boa dose de loucura para que tudo valha a pena.   

Ouvir um amado feliz falar sobre os segredos da sua relação é o mesmo que ouvir o Bill Gates falar da Microsoft ou o Steve Jobs falar do Iphone.

Talvez estes meus teóricos conselhos possam apenas ser dirigidos a um pequeno punhado de pessoas: homens felizes que estão apaixonados pelas suas mulheres, porque ás mulheres felizes que estão apaixonadas pelos seus homens nada tenho a dizer. As mulheres são um completo mistério para mim, um mistério que adoro mas que constitui uma ignorância especulativa quase total. E assim chego à minha primeira grande conclusão: homens são homens e mulheres são mulheres. A mulher pode ser muito amiga mas não é um gajo. O homem pode ser muito amigo, mas não é uma amiga.

Dizem os livros profissionais que li que a grande diferença entre homens e mulheres reside na forma como lidam com o conflito. O homem evita-o a todo o custo e foge logo que pode, as mulheres ficam. Por acaso, e só por um mero acaso, até porque eram livros americanos, é verdade. Os homens são mais fugidios!

Em vez de lutar contra isso o homem deve ceder a essa cobardia, recolher-se quando a discussão estiver a dar para o torto. Não pode é ser de repente. Tem de “ouvi-las e dizê las” durante um bocadinho antes de fugir. Não pode sair de casa e ir ter com outra pessoa, nem mesmo um amigo. Tem de ficar no seu canto a remoer, calado, a fumegar e a sofrer. O objectivo é prender-se ali para não dizer coisas más, pois já dizia a minha avó que uma palavra impensada fora da boca é como uma pedra afiada atirada sem grande pontaria. Pode vazar uma vista – dizia ela.

As zangas passam e são substituídas pela saudade. No momento da zanga a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco ou muito tempo depois a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Primeiro estávamos só magoados, agora estamos magoados e um bocadinho arrependidos e fazemos figas para que ela também esteja um bocadinho arrependida. O segredo consiste em esperar que o amor faça o seu trabalho e nos conduza à saudade e ao arrependimento. Que embora não devam ser escondidos, tal como todos os sentimentos, devem ser mostrados com gentileza e uma mágoa que queira mimo, e não proclamação.

Discutir é bom e salutar, mas tal como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao paciente, o primeiro cuidado de uma relação feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários.  


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