sábado, abril 23

Olearam-me os patins

Sempre que sofremos uma perda relativizamos, buscamos explicações, temos medo e sobretudo agarramo-nos muito a qualquer opinião de quem nos queira ouvir. Ouvimos, ouvimos, voltamos a questionar e ouvimos de novo o mesmo.

Mas nunca ouvimos realmente o que queremos, nunca ninguém tem a ousadia de não comparar o nosso sofrimento a qualquer um outro que já tenha vivenciado e simplesmente não dizer, vai passar!!!
- Eu sei que custa mas vai passar!!!!
- É mesmo assim!!!
- Depois ainda vai vir a fase da revolta e depois da saudade, mas vai passar!!!!

Porra suas grandes abéculas é pedir muito que se calem e que simplesmente nos deixem chorar a nossa perda? É possível não dizer que o mundo não acabou. Porque, para nós, efectivamente, naquele momento, ele acabou mesmo.
Será assim tão difícil ficar calado e deixar-nos chorar. Ajudar-nos a chorar. Uma e outra vez e mais se necessário for… Deixem-nos afundar na viscosidade de que o sofrimento da perda, da rejeição, sempre se reveste. Na viscosidade das culpas, dos medos, das lembranças, da entrada na casa vazia, da falta de calor da cama, da dúvida, da vontade de nos humilharmos aos pés de quem nos pontapeou, deixem-nos escorregar por esse buraco até deixarem de nos ver a ponta dos cabelos, deixem-nos chafurdar no meio do sofrimento até á exaustão, até ao ultimo fôlego.Deixem-nos lá ficar a lutar contra os nossos sentimentos a esbracejar de raiva pela nossa triste sina, a vitimizarmo-nos pelo que sobre nós se abateu.

Depois, meus grandes burros, basta imitar um qualquer herói de filme quando no último instante salva a dama de se atirar do prédio, ou reanima de forma espectacular aquele que já esteve tempo de mais debaixo de água sem respirar… sei lá! Há imensos exemplos na TVI, nem é preciso ser criativo.
O momento certo para ser herói é quando a nossa dor se tornou insuportável para vós que a ouvis, ou quando estivermos loucos de isolamento ou, simplesmente não façam nada disso e continuem a ajudar-nos a chorar.

É de facto difícil ver alguém afundar-se e não lhe puder atirar outra bóia de salvação que não seja disponibilizar o nosso ombro para que continue a chorar e a afundar. É difícil resistir à tentação de sugerir um atalho. Eu não o consigo fazer, mas, porra, agora é comigo e só quero que me seja dada a liberdade de chorar.

Na verdade essa liberdade não existe, a sociedade não deixa que exista, se não lhe quiserem chamar sociedade chamem-lhe rebanho. Estou-me a borrifar para o nome desta “coisa” que a todos deixa miseravelmente infelizes. Pelo menos a mim deixa.
Essa tal “coisa” não deixa porque não pára, porque não espera por nós, porque não se desvia um cm para não nos atropelar.

Não posso tirar um tempo para pensar pois o trabalho não espera e estão 100 cães à espera do osso, assim a alternativa é ir, estar, aguentar e colocar mais uma camada de ferro na armadura para sufocar as emoções e… ir em frente! Dito assim até parece algo heróico e digno de figurar numa auto-bibliografia de um qualquer magnata, mas eu estou-me a borrifar para os magnatas. Quero chorar.
A renda da casa para pagar, o carro, a família para suportar, os hábitos de vida que o fruto do suor nos inculcou e que agora não conseguimos arrancar sem desfazer a pele.

Bem, pode até parecer uma lista de desculpas, mas na realidade se quisermos chorar a sério temos de partir tudo, atirar tudo fora e sujeitarmo-nos ao que conseguirmos voltar a construir. E isso exige muita coragem!

A porra deste mundo não nos deixa chorar em paz o nosso sofrimento sem que tenhamos de nos sujeitar a mais sofrimentos.

Gostaria também de chorar porque os patins estavam demasiado bem oleados e eu espatifei-me todo.

1 comentário:

  1. Eu gostava de ter escrito isto. Pelo menos, reflecte muito bem o que sinto.

    (Já me espatifei muitas vezes nos patins -o joelho esfolado é testemunha- e essa dor nem se parece à outra.)

    Obrigada
    María Alonso Seisdedos

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