quarta-feira, novembro 6

UMA RELAÇÃO É UM FILHO PRIMOGÊNITO

Quem não sabe fazer ensina. Velha máxima dos escritores da qual eu, embora não sendo um deles, me vou apropriar esta noite. Não versarei sobre talento ou escrita mas sim sobre a minha velha e martelada tecla; as relações, a sua dinâmica, os sucessos e os fracassos.

Desde há uns anos que tento escrever sobre uma relação feliz. Houve uma época em que me iludi e julgue-me apto para o fazer. Cometi até a idiotice de ler livros profissionais, mas logo me esvaziei e percebi que nada percebo de relações. Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de uma relação feliz. Parecem-me que são desaconselháveis os conselhos que posso dar, mas reservo-me ao único direito que realmente prezo na constituição: o direito de asneirar.

Uma relação é um filho. Um filho inteiramente depende dos dois. Se se separem, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade. Quando esse filho é amado por ambos os companheiros – que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo – a relação é feliz. Não basta que os membros do casal se amem um ao outro, têm também de amar a relação que criaram.

Uma relação só pode ser vivida de uma maneira – que é a relação em si – nada é exportável, não há bocados da relação que possamos levar connosco, caso ela acabe.

Uma relação é um filho carente, por vezes insuportavelmente birrento e outras enfadonhamente calmo. Mas um filho que dá mais prazer que trabalho. Dá-se de comer ao filho e o organismo dele faz a parte mais difícil, embora automática, de converter o alimento em crescimento e saúde. Também a relação precisa de ser alimentada, mas faz sozinha o aproveitamento do alimento que lhe damos. Por vezes adoece e tem que ir às urgências. Mas com o crescimento há cada vez menos urgências e lidamos com elas de forma mais tranquila.

Se calhar os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar o primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é a relação deles. É o irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. Se o primeiro filho que nasce for considerado o primeiro, pode apagar a relação ou substitui-la. Se a mãe está dedicada e focada no filho de carne e osso, o pai, em vez de se queixar da falta de atenção deve dedicar-se a cuidar do mais velho; da relação deles, mantendo-a romântica e atenciosa.

Ao contrário dos outros o primeiro filho nunca sai de casa. Fica para sempre. Vale a pena cuidar dele. E ao contrário dos outros filhos desaparece para sempre com a maior das facilidades e a mais pequena das desatenções.

Os livros chatos que li dão a ideia que uma relação feliz dá muito trabalho. Mas se dá muito trabalho como pode ser feliz? Talvez porque esses livros dão a ideia que as relações são concessões e transacções em ambas as pessoas embarcam para conseguirem continuar juntas sem serem infelizes. Que coisa aborrecida!

Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão, mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é ficam a ganhar por muito que tenham perdido. O que recebem do petiz compensa tudo o que lhe deram. É o sacrifício melhor recompensado.

Também numa relação feliz cada um pensa que tem mais a perder que o outro se a relação desaparecer. Sentem que se isso acontecer ficam sem chão e sem nada. Mas se a relação for pensada como uma troca vantajosa – tu dás-me isto e eu dou-te aquilo –, até pode ser feliz mas não é de amor. De amor é – eu dou-te e não espero em troca –, nem biscoitos se tu os não deres por tua livre iniciativa.

E agora vem a parte em que podem perceber a razão do primeiro paragrafo e ainda que estes conselhos de nada valem – porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se com a pessoa que se ama mesmo que ela não nos ame. Afinal é preciso ter-se uma grande alma e uma boa dose de loucura para que tudo valha a pena.   

Ouvir um amado feliz falar sobre os segredos da sua relação é o mesmo que ouvir o Bill Gates falar da Microsoft ou o Steve Jobs falar do Iphone.

Talvez estes meus teóricos conselhos possam apenas ser dirigidos a um pequeno punhado de pessoas: homens felizes que estão apaixonados pelas suas mulheres, porque ás mulheres felizes que estão apaixonadas pelos seus homens nada tenho a dizer. As mulheres são um completo mistério para mim, um mistério que adoro mas que constitui uma ignorância especulativa quase total. E assim chego à minha primeira grande conclusão: homens são homens e mulheres são mulheres. A mulher pode ser muito amiga mas não é um gajo. O homem pode ser muito amigo, mas não é uma amiga.

Dizem os livros profissionais que li que a grande diferença entre homens e mulheres reside na forma como lidam com o conflito. O homem evita-o a todo o custo e foge logo que pode, as mulheres ficam. Por acaso, e só por um mero acaso, até porque eram livros americanos, é verdade. Os homens são mais fugidios!

Em vez de lutar contra isso o homem deve ceder a essa cobardia, recolher-se quando a discussão estiver a dar para o torto. Não pode é ser de repente. Tem de “ouvi-las e dizê las” durante um bocadinho antes de fugir. Não pode sair de casa e ir ter com outra pessoa, nem mesmo um amigo. Tem de ficar no seu canto a remoer, calado, a fumegar e a sofrer. O objectivo é prender-se ali para não dizer coisas más, pois já dizia a minha avó que uma palavra impensada fora da boca é como uma pedra afiada atirada sem grande pontaria. Pode vazar uma vista – dizia ela.

As zangas passam e são substituídas pela saudade. No momento da zanga a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco ou muito tempo depois a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Primeiro estávamos só magoados, agora estamos magoados e um bocadinho arrependidos e fazemos figas para que ela também esteja um bocadinho arrependida. O segredo consiste em esperar que o amor faça o seu trabalho e nos conduza à saudade e ao arrependimento. Que embora não devam ser escondidos, tal como todos os sentimentos, devem ser mostrados com gentileza e uma mágoa que queira mimo, e não proclamação.

Discutir é bom e salutar, mas tal como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao paciente, o primeiro cuidado de uma relação feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários.  


sábado, abril 20

CONFISSÃO DE HOMEM NEANDERTAL

Eu, homem de Neandertal me confesso. Por vezes não me oriento sem livro de instruções. Para os meus pares será sinal de fraqueza, da busca do caminho mais fácil, mas para mim é a assunção de um verdadeiro empenho em que construção fique perfeita.

Preciso apenas de um único livro de instruções. Aquele que fala de ti. Em tudo o resto basta-me ser homem e fazer o que sempre fazemos. Abrir a caixa, tirar as peças, atirar para o lado o caderno de papel com as diretivas e começar a montar. Já no final olharei num misto de orgulho e vergonha para a construção e automaticamente me ocorrerá um boa desculpa para o empeno não suposto da obra. Mas contigo não quero ter orgulho nem vergonha, quero apenas nenhum esforço regatear para que saia perfeito.

Se o livro não vier junto, sim porque há livros que por muito desejada que a sua mensagem seja simplesmente não existem, negarei pela segunda vez a minha Neandertal essência desmontando e voltando a montar mil vezes até raiar a perfeição. Negarei o orgulho e a preguiça e essa nega transformar-se-á no meu indestrutível pilar, minha plena assunção como homem que sabe o que realmente quer.
 

quinta-feira, dezembro 13

ACOMPANHÁMO-NOS ATÉ AO FIM


Hoje, aí no alto, o ar está rarefeito
não esqueci como me ensinaste a respirar
mas, já cá não estás
para me ajudar no ritmo do peito

Hoje, aí no alto, o verde perdeu cor
a quietude do fresco ar perdeu serenidade
a os que contigo a partilhavam
perderam quem lhes mitigava a dor

E a cada memória  
um sorriso apodera-se de mim
são tantas que me considero rico
acompanhámo-nos até ao fim.

Hoje, aí no alto, perdeu-se um destino
esse teimoso portão
sentir-se-á desacompanhado agora
lembrar-vos-ei sempre com carinho

Amanhã, aqui em baixo, o sol acordará a brilhar
o chilrear destes dois pousados no meu parapeito
desperta-me num contentamento
é a tua lembrança que me veio sossegar

E a cada memória  
um sorriso apodera-se de mim
são tantas que me considero rico
acompanhámo-nos até ao fim.

quinta-feira, agosto 16

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA – CONSELHOS PRÁTICOS PARA 2012


Nunca mostres o que és. Os outros ficam com uma impressão tua mais cara e clara se assim fizeres. Se mostrares que tens medos não revelarás coragem de quem enfrenta os seus demónios mas que és, tão-somente, uma presa fácil. Assume comportamento de pavão; mostra apenas o melhor e o mais sumptuoso que há em ti. A regra do facilitismo dita que a forma define o conteúdo. Foge sempre que as coisas se complicam. É sempre mais seguro que ficar e enfrentar. Ser herói só vale a pena se houver um jornalista por perto e nem mesmo a TVI se interessaria por uma história de estoicismo caseiro. Se não tens a certeza absoluta que podes dominar não ataques. A fome é invisível, a ousadia do tentar também o é, mas uma tentativa frustrada será alardeada aos sete ventos. Nunca esqueças que assumir e destapar as tuas fraquezas não é nem um pouco sexy. Porquê fazer pelas próprias mãos se o podes comprar já feito. Afinal a teoria do ovo de Colombo é muito válida. Porquê trilhar o nosso próprio caminho, cravejado de pedregulhos, se podemos ir de avião na companhia de mais duzentos passageiros. É mais rápido, menos cansativo, menos solitário e sobretudo menos exigente em termos mentais. Basta seguir os outros duzentos. É impossível que tantos estejam enganados. A dúvida não é o repuxar do cimento que dá solidez à parede. É apenas um sinal que deves fugir a sete pés. Afinal, antigamente, construíam-se as casas com palha e barro. Não penses nem te questiones tanto, limita-te a seguir as indicações. Caso contrário estarás a desperdiçar o dinheiro da mensalidade da televisão por cabo.

quarta-feira, agosto 15

Oh RÁQUEL!!! Oh RÁQUEL!!!!

Grau de alcoolémia ligeiramente acima do permitido para escrever (venero mas não me guio por Hemingway), mas também é Agosto e chove quase a cântaros. Se o clima transgride porque não o ei-de fazer eu? Antes da chuva fui à festa. Morna estava a cerveja, gélido o ambiente e sem temperatura o convívio. Algo me deve escapar porque efetivamente já não encontro sal, pimenta neste convívio. Fui com certeza ultrapassado pelo tempo e para além de info-excluído sou também “ermita-excluído”. Antigamente doze meses de eremitagem davam direito a pelo menos dois dias de convívio deliciosamente exagerado. Antigamente! Politicamente a coisa resume-se a: - Então que tal? Tas fixe? - Eh pá demasiado trabalho. - Não te queixes! Pelo menos tens trabalho! Pena que os Monty-Pyton já não produzam. Senão este seria um diálogo digno deles. Puro “non-sense”. Radiografia perfeita do sentir da sociedade de hoje. A valorização que fazemos da nossa mão-de-obra atingiu mínimos históricos na bolsa da dignidade. O “…não te queixes! Pelo menos tens trabalho…” é muito mais que uma frase de ocasião. É o assumir que já aceitamos a perda do direito à recompensa pelo nosso suor, o direito a ambicionar algo mais, a capacidade de dizer não quando a tarefa pedida se revela hercúlea. Esta frase representa um nível de acomodação confrangedor, uma cedência indigna. Murchou-nos a postura. A água com que nos alimentam levou todo o sal e pimenta da nossa alma. Quebrantados na alegria, abdicamos do divertimento e transformamos estes dois dias de festa numa refeição sem sabor que todos servimos e comemos por frete. Já perdeu sentido o tardio, ou madrugador, depende da perspectiva horária berro pela Raquel pois; - Já não há vontade. - Já não há discoteca. - A Raquel já não vem cá e nós deixamos de ter capacidade para a imaginar. Enfim, se não tivesse tanto pejo em usar chavões atreveria-me a afirmar que estamos velhos. Seria a desculpa perfeita para os sem saborzões em que nos tornamos. A mim resta-me a memória e a vontade de ir berrar pela Raquel, mas será que sozinho faz sentido?

domingo, julho 29

PORTUGAL POR UM CANUDO

Gosto de analisar polémicas quando elas já deixaram de o ser. Ou seja quando já arrefeceram, já deixou de haver piadas no café, perdão no facebook, e os jornalistas saciaram a sua sede de sangue. Não o faço por tique pretensioso ou assomo de vedetismo, faço-o apenas porque é despois da poeira assentar que melhor se podem ver as alterações na morfologia do solo que a tempestade provocou. O Sr. Ministro Miguel Relvas errou na forma e no conteúdo. Na forma porque enveredou pelo facilitismo e pela rapidez revelando ingenuidade pouco consentânea com a tarimba de mais de 12 anos de vida pública. Sr. Ministro até para aldrabar é preciso ser coerente. Se precisava de um canudo para se sentir seguro deveria, pelo menos, ter-se dado ao trabalho de se matricular dois ou três anitos e ter ido fazer mais uns exames. Seria um embuste mais bem conseguido. É certo que com a experiencia de deputado, de dirigente partidário, de secretário de estado, dos nove cargos ocupados na delegação da Nato e por ai adiante, pouco ou nada teria a aprender numa licenciatura de ciência politica e relações internacionais. Atrevo-me até a considera-lo como um excelente candidato a docente do referido curso. Ora bem, se uma personalidade marcadamente estratega como a do Ministro Miguel Relvas comete um erro de palmatória deste calibre temos de tentar perceber que ansia levou este senhor a procurar um canudo a todo o custo. É aqui que entra o erro no conteúdo. O senhor Miguel Relvas não teve “tintins” para assumir um cargo ministral sem o canudo da praxe. Provavelmente não teve ele nem teria quem o escolheu para o cargo; apesar da longa relação de fiel escudeiro do primeiro para com o segundo. Caro leitor seja honesto e admita o escândalo que seria ter um ministro sem licenciatura. Num país onde o título aparece no cartão de crédito e nos cheques credibilizando inigualavelmente o seu portador. A pessoa a quem pagamos fica bastante mais descansada se receber um cheque com Dr. e se pagarmos com cartão o empregado sorrir-nos-á com subserviência acrescida se o Dr. constar no quadradinho de plástico. Há muito tempo que a licenciatura deixou de ser sinónimo de formação, de conhecimento e muito menos de formação superior. Na minha opinião uma pessoa bem formada escreve sem erros, sabe o ano em que ocorreu a revolução de Abril, sabe quem escreveu os Maias, qual a capital dos EUA, e por ai adiante. Convido-o a pesquisar no Google com o tag “ignorância dos estudantes universitários” e compreenderá rapidamente o meu ponto de vista. Portanto se a licenciatura não é sinonimo de conhecimento será apenas um adereço como uma qualquer peça de roupa que serve para parecermos bonitos e para nos sentirmos menos inseguros. Srs jornalistas, perdão vampiros desesperados por sangue, abordem os assuntos de forma séria, vejam para além do fumo que vocês mesmo criam. Informem-nos de forma séria, honesta e inteligente. Sr. Miguel Relvas por favor demita-se, não por ter aldrabado nesta questão do curso, mas por não ter coragem de se reconhecer capacidades sem o banal canudo. Demita-se porque a sua atitude transmitiu a todos os que não são licenciados que por mais íntegros e competentes que sejam nunca poderão aspirar a dirigir os destinos de uma nação por demasia necessitada de integridade e valor. Leitores, quando criticarem o ministro Miguel Relvas, quando inventarem piadas sobre a sua licenciatura lembrem-se que mais não estão a fazer que a rir da Vossa própria mesquinhes. O que não é forçosamente mau, rir de nós próprios e dos nossos defeitos é mentalmente saudável. Rir de si próprio reconhecendo os defeitos e procurando melhorá-los para além de ser sinal de saúde mental é também revelador de inteligência.

sábado, julho 21

A CULPA É SEMPRE DO QUE TRAI MAS O TRAÍDO NUNCA É INOCENTE


Só escrever este título já é susceptível de me meter numa carga de trabalhos. Por isso apresso-me a retirar o carácter auto-bibliográfico a estas linhas. Parece-me também que me estou a meter “numa camisa de onze varas”. Pois preparo-me para atacar a força da vitimização, contrapondo uma ingénua co-responsabilização. Sem dúvida que o acto de trair é essencialmente covardia, fuga e facilitismo. Indesculpável na medida em que se configura como desestruturação da personalidade. A opção por “dois pássaros na mão” é de muito curto prazo revelando insegurança, medo de si próprio e falta de inteligência. Para segurar uma pomba são preciso duas mãos. É impossível segurar dois pássaros numa mão sem os apertar demais, atirando-os para a morte. Por outro lado ser fiel por convenção não revela muito mais brilhantismo. Seria fácil justificar a não inocência do traído pelo chavão: “…só se procura fora aquilo que não se tem em casa…”. Embora não seja adepto de chavões não os exorcizo, pois reconheço-lhe a substancia da sabedoria popular. Aventurando-me por caminhos desconhecidos recuso o determinismo do chavão e coloco a tónica no “umbiguismo” e no facilitismo. O “umbiguismo” tolda-nos tal como o faz a focalização excessiva. Por vezes para encontrar a solução do problema o melhor caminho é mandar “tudo às urtigas”, distanciar-se, focalizando outra actividade. Nesse processo somos quase sempre contemplados com um prisma diferente e mais simples do problema inicial, ferramenta essencial para a sua resolução. Nas relações, embora não as querendo comparar a problemas, aplica-se a mesma regra. Por vezes estamos tão embrenhados nelas que esquecemos o básico; Dar! Se a relação estiver bem talhada por cada sorriso receberemos dois, por cada carinho uma noite inteira de colo, por cada prenda uma imensidão de beijinhos. É precisamente no “dar” que se revela a incapacidade dos “umbiguistas”. Para estes a tónica está no “receber”. O facilitismo embala-nos num leito de preguiça, desleixo e certezas alicerçadas em solo muito atreito à erosão do tempo. Uma “aliança” não pesa assim tanto que nos impeça de levantar a mão para um carinho. O conforto do lar não é sinónimo de pijamas foleiros, pantufas e fugas ao ginásio. O mundo está em constante mudança e o passado é apenas recordação. Quem tem uma relação feliz e “salta a cerca” é pulha e mau carácter, ao passo que quem tem apenas uma relação e trai não passa de ser humano, covarde e medroso.

quarta-feira, junho 27

ABDICAR NUNCA É ETERNO


A importância que uma coisa ou uma pessoa têm na nossa vida, mede-se pelo valor que atribuímos à coisa, momentaneamente, apeada do seu lugar pela nova. Nada nem ninguém ocupa o lugar de outro indefinidamente. À entropia causada por uma pedra segue-se sempre a calmaria das águas do lago. À confusão gerada pelo nascimento segue-se a harmonia da família alargada. Aprendi o acima dito agora mesmo. Diante da tela branca, remexendo os dedos calcinados de ferrugem e incapazes de traduzir o vazio de ideias que me povoa o cérebro. Não serei severo com ele pois limitou-se a cumprir o desígnio do «se paras, enferrujas», e ainda inventou uma esfarrapada desculpa para a paragem. Bela de tão esfarrapada que era. Na verdade pouco me importa a astenia cerebral de hoje pois provoquei-a e estou feliz com isso. Agrada-me também observar a reorganização das peças. Afinal cabem todas. Abdicar nunca é eterno. O pica-pau advogado do abdicado trabalhará sem cessar relembrando-nos a cada bicada do deixado para trás. Tanto bicará que se tornará insuportável a sua presença e, em busca de sossego, acederemos voltar atrás e recuperar a essência temporariamente abdicada. Mais uma boa noticia que me deixa feliz. É portanto impossível abdicar de algo para sempre. Auto-regulação da natureza provavelmente. Gosto mesmo de pica-paus workaholics , sossegam-me o espírito. A quem o mesmo não suceder recomendo realismo. «Podes fugir mas não te podes esconder». Soa melhor em inglês mas não deixarei aos brasileiros a defesa da minha língua. Realmente estou enferrujado mas estou feliz com isso. Ousei desviar a atenção, dar o flanco e «bandeira». Não sei o resultado mas sei que foi corajoso.

quinta-feira, março 1

ATTRAVERSIAMO


“…Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

In Fernando Pessoa

Roubei este pequeno grande pensamento do, igualmente grande, Fernando Pessoa. Roubei, porque queria escrever sobre a palavra “attraversiamo” que aprendi num livro que jamais leria se alguém não me tivesse dito:

-“Attraversiamo”! Verás que é bom. Experimenta! Anda, vem conhecer também as coisas que eu gosto! São simples e despretensiosas mas também existe beleza nelas.

Não foram propriamente estas as palavras usadas, foram até bastante diferentes e de, aparente, sentido quase antagónico ao que reproduzi. Mas a intenção, essa, pode ser claramente ilustrada pelas palavras acima. “Attraversiamo” é uma corrente expressão italiana que significa; vamos atravessar. Vamos arriscar cruzar a via, descobrir a outra banda da rua. Vamos! Eu acompanho-te, não te deixarei só! Ousa deixar essas confortáveis roupas já enformadas pelo teu corpo e vem experimentar outras cores. Vem, será uma descoberta guiada! Estarei contigo.

A beleza do “Attraversiamo” está no enormíssimo conteúdo incorporado na singeleza e vulgaridade da expressão. Está no desafio à reflexão sobre o simples. Em não aceitar o óbvio sem saber porquê, voltando, assim por momentos, a ser criança saboreando a sábia riqueza da inocência. Na descoberta guiada e na reconfortante certeza de que venha o que vier estará alguém, a pessoa, connosco. Não precisa fazer nada de extraordinário, basta estar lá e já nos estará a prestar o mais valioso serviço a que alguma vez tivemos direito. Estar lá, acompanhar-nos pelos caminhos, passadeiras, cruzamentos ou passagens de nível é simplesmente impagável.

“…É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos…”
Grandes mudanças ocorrem na natureza quando dois simples e minúsculos átomos colidem. Não é preciso mover mundos e fundos para atingir a felicidade e manter a câmara de combustão em funcionamento. Basta ir ajustando, ser inquieto, aceitando a quietude como resultado de um contínuo processo de mudança. No entanto, ser estatua, por mais imponente e robusta que seja, será sempre mais perigoso que ser um pequeno e insignificante caracol. Ser lebre é bonito, elegante e emocionante, mas é sol de pouca dura pois a lebre facilmente descura, consentindo ao caracol chegar primeiro à meta.


Tudo isto e muito mais está englobado na minha forma de entender o “attraversiamo”.

segunda-feira, fevereiro 27

Dar é fácil, receber é simplesmente impossível


Dar é fácil, receber é simplesmente impossível e sempre transformado em complicação. Complicar o simples é, só por si, um dos maiores desígnios da humanidade. Quando se trata de receber o complicometro atinge a sua potência máxima e desata a fabricar disparates, vãos orgulhos, dependências sentidas, débitos de empréstimos inexistentes e um sem fim de outros disparates igualmente com enorme aceitação social.

Todos somos capazes de exercer o aclamado altruísmo mas quando se trata de ser sua cobaia tudo pia mais fino. É como se todos nós tivesse-mos inventado vacinas para a sida mas ninguém estivesse voluntariamente disposto a receber nenhuma delas. Afinal, mais vale morrer de sida que morrer de vergonha de ficar em divida. Claro que esta teoria não se aplica a ilustres personagens como Duarte Lima, Armando Vara, Oliveira e Costa e alguns mais que a minha transmontana educação me impede de citar em tão desinspiradas palavras.

A ironia disto tudo é que só queremos receber aquilo que não nos dão. A ironia das ironias é a intemporalidade e actualidade dos poemas do saudoso António Variações. Percebo agora porque levava uma vida de excessos. Procurava anestesiar a dor causada pela sua, tão sublime e acertada, capacidade de percepção dos comportamentos e da realidade.

Quando nos dão aquilo que queremos ficamos em pânico absoluto. Maior do que se nos passassem um recém-nascido para as mãos. Não fazemos literalmente a porra de ideia nenhuma do que fazer e apenas somos invadidos pelo medo de deixar o bebe cair. Entretanto, não aproveitamos peva da fantástica sensação de aconchegar e acarinhar.

Enfim… somos bichos muito estranhos como diria alguém que conheço.

domingo, fevereiro 12

VAMOS AO CIRCO...


No circo sempre me fascina o equilibrista que caminha na fina corda a 7 metros de altura. Uma queda, certamente, o deixará mal tratado pois não se vislumbra, a olho nu, qualquer rede de segurança.

O circo é uma irmandade, um grupo muito coeso de pessoas que se apoiam mutuamente na solidão do nomadismo. E essas pessoas são nada mais que a rede uns dos outros. Na realidade a vida é também um circo. Uma performance que executamos com maior ou menor mestria, para um publico mais ou menos exigente. Não digo que a vida seja uma performance a tempo inteiro mas se quiser ser honesto tenho de aceitar que consagramos 80% do tempo a essa exibição. Nestes 80% do tempo as redes são fundamentais. Nos outros 20% em que nos dedicamos a viver a vida na sua essência sem preocupações artísticas e sem o sentimento de constante avaliação, as redes são ainda mais importantes. Pois é nessa altura que agimos sem resguardo, que avançamos para a corda sem vara e que, fazendo maravilhosos saltos e acrobacias no ar, confiamos a vida na mão do outro. Quando assim vivemos nunca pensamos que pode correr mal, a precaução não existe nem tem de existir. Entregamo-nos e pronto.

Não posso negar a existência, embora remota, da possibilidade de correr mal e de nos espatifarmos. Nessa altura será muito reconfortante ter aqueles, poucos, nómadas que nos acompanham a apoiar e a velar por nós. Importa, muito, que conheçamos, por completo, o significado da palavra reciprocidade e que a pratiquemos sem esperar qualquer dividendo. Façamo-lo com poucos e quando o fizermos que seja inteiro e sem esperar nada em troca.

Quem vive sem se preocupar em construir redes é parvo. Quem vive obcecado por elas não vive realmente e é medricas.

domingo, fevereiro 5

DIZ UMA VAGINA PARA OUTRA….


O amor é simples, a felicidade não pede licença para entrar, nem tão pouco avisa da sua visita. Quando damos conta da sua existência já nos habita e habita connosco há largo tempo. É discreta e silenciosa, sabe invadir sem fazer reféns, instala-se no cantinho mais escondido da sala. É mestre do disfarce. Vivemo-la tempos infinitos sem nos darmos conta da sua existência. Até que um dia enxergamo-la numa simples anedota de vaginas.

“ Diz uma vagina para outra.
- Ouve lá, dizem por ai que és frígida!
- Não ligues, são apenas as más-línguas! Retorque a outra.”

E nós rimos, sorrimos em serenidade e sentimos o riso invadir-nos, deixando uma opiácea sensação de bem-estar. Entre a anedota e o sorriso várias vezes repetido o universo apresentasse-nos simples e sem segredos. Tudo compreendemos sem nada querer entender. Contemplamos apenas, e ficamos felizes apenas por sabermos exactamente o que observar. Falar em momento perfeito seria um cliché redutor e esvaziado de sentido. Até porque não há momentos perfeitos, há rendições incondicionais nas quais a palavra derrota não encontra encaixe nem sentido. São rendições a nós mesmos, submissões à honestidade que sempre norteia o coração. Assim, prefiro descrever o momento como a certeza de que o mundo lá fora ficará em suspenso à nossa espera sem que tenhamos pressa ou vontade de voltar para ele. E, sobretudo, sem que nos importemos se espera ou não por nós porque tudo o que nos é caro está ali mesmo entre a anedota e os sorrisos.

Não me orgulho da qualidade literária ou substancial do que aqui escrevo, orgulho-me apenas de assumir tê-lo escrito sem expectativas ou receios. Orgulho-me da anti-estratégia que ele em si encerra.

quarta-feira, janeiro 25

Em cavalo dado não admite, burro, ir montado.


A cavalo dado não se olha o dente!!! Diz o povo na sua enorme sabedoria. Normalmente sou acérrimo defensor destes ditos simples mas tão cheios de propriedade. Porém, hoje, esta noite, defenderei a excepção em detrimento da regra. Não concordo com o povo! Ou melhor, gostaria de partilhar outros pontos de vista que hoje me ocupam o espírito.

A cavalo dado não se olha o dente porque não se valoriza o animal. Nada tem a ver com o facto de nos sentirmos mal agradecidos ou indelicados por colocarmos defeito em algo que nos foi ofertado. Tem apenas a ver com a desvalorização com que de imediato carregamos o pobre bicho apenas porque nada nos custou, não matamos por ele, não passamos por cima de ninguém para o ter ou não o arrancamos a ferros de alguém depois de anos de mendigagem.

Esta constatação leva-me a duvidar doutra verdade universal apregoada pelos mais católicos. “Tudo o que deres ser-te-á retribuído em dobro!” Disse um dos apóstolos ou talvez tenha até sido o próprio JC. Para o caso não é relevante. Ao olhar macro sociológico esta afirmação poderá até fazer todo o sentido. Posta em prática faria, certamente, com que um bocadinho de céu baixasse à terra ou ficasse, pelo menos, mais fácil de alcançar. Tudo isto é muito bonito e comovente e no meu íntimo, utopicamente, acredito nele. Mas, a meus olhos ressalta, no entanto, uma frase com ligeira modificação e com um nível de multiplicação substancialmente maior. “… Tudo o que sonegares ser-te-á dado cem vezes mais!” Digo eu, mordendo a língua de desgosto por dize-lo.

Ansiamos por receber, por partilha, por ser bem tratados, mas, simplesmente, não o permitimos porque não valorizamos e com isso não queremos nem sabemos ser bem tratados. É mais fácil fazer um elogio que recebe-lo, é mais fácil amar que ser amado, é mais fácil dar que receber. É, também, demasiado fácil sentirmo-nos objecto de hipotética ajuda, ter a necessidade de fazer sozinho, não porque privilegiemos a independência mas, apenas, porque o ego se sobrepõe à razão e com facilidade fere um coração. Admiramos e sabemos que as equipas capazes de grandes feitos são as que têm jogadores medianos per si mas prodigiosos enquanto equipa. Todavia, todos jogamos ou queremos jogar em equipas de vedetas. O mero lampejo de precisão do outro afigurasse-nos um sufoco e um fardo cem vezes mais pesado que a completa solidão. Contudo quando ela chega saímos disparados em busca de um qualquer que nos faça parecer em companhia.

Talvez a frase que melhor nos explica seja: “ Em cavalo dado não admite, burro, ir montado”. Calimero dixit.

quinta-feira, janeiro 19

TAMBÉM GOSTARIA DE TER O PERIODO


Se pudesse gostava de ter o período como as mulheres!

Não, não pretendo ser grosseiro, vulgar ou ofensivo. Apenas quero lançar uma visão diferente sobre o tema.

Normalmente a mulheres associam esta altura do mês a algo desagradável e sobretudo a sofrimento. Ficam mais sensíveis, o que nas palavras delas significa “chatas” e, sobretudo, passam por sentimentos de falhanço e de esperança no recomeço, tudo ao mesmo tempo. De cada vez que o período chega é a prova de que naquele mês não conseguiram cumprir o desígnio da natureza, ou seja engravidar e procriar. Por outro lado quando o novo ciclo menstrual se inicia a esperança renasce. É preciso morrer e nascer de novo, há que ser trigo, depois ser restolho, há que penar para aprender a viver. Resumindo, o período é altura do mês em que o tal aumento de sensibilidade favorece a reflexão, ou pelo menos devia, e em que temos oportunidade de nos reinventar.

Claro que a maior parte das mulheres já me está a rogar pragas e a pensar, se este louco soubesse o que se sofre nesses dias não estava para aqui com filosofias baratas. Pois minhas caras, acredito que a dor vos apoquente nesses dias mas já pensaram que no nosso dia-a-dia estamos constantemente a mexer-nos, a procurar comprimidos ou outros adormecedores para evitar o desconforto físico, emocional e psicológico. Esquecemos que a dor e o incómodo são inevitáveis nesta vida. Mas se ficarmos quietos e formos pacientes o tempo suficiente, acabaremos por chegar à verdade de que tudo (tanto o que é desconfortável como o que é agradável) acaba por passar. E esta é a melhor prova que a vida não é existir sem mais nada, não é dia sim, dia não, é feita de entrega alucinada, resistência extrema e contemplação do milagre que a própria constitui só por si.

Falta-me explicar porque gostaria de ter o período. É simples; gostaria pelo menos uma vez por mês de ser mais sensível, de me reinventar, de passar de trigo a restolho e voltar a ser trigo, de me sentir renascer. Gostaria de sentir a dor e saber que ela iria passar. Tudo o que teria de fazer era suporta-la e contemplando as mudanças no meu corpo e o rotineiro fluir da vida. Gostaria, sinceramente, de ter uma boa desculpa ou razão para parar a folia louca e sem sentido que me preenche os dias e reflectir, sofrer, contemplar e enriquecer-me. Nem que fosse apenas uma vez por mês já seria muito bom. Não estou a ser apenas mandrião, tento ser realista e assumir as minhas limitações.

quarta-feira, janeiro 18

AO INICIO SOMOS APENAS PLASTICINA

Nos somos plasticina, o tempo é calor e os sonhos são o molde!

Comparar o ser humano a um material inanimado e sem consciência não é de todo consensual. No entanto se conseguirmos ultrapassar As questões de pormenor e abrimos o espírito ao pensamento lato facilmente percebemos a pertinência desta comparação. À nascença não somos mais que material bruto com uma enorme capacidade de moldagem. Moldagem essa que se fará de dentro para fora e também de fora para dentro, dado que a influencia social é insociável da génese humana.

É o tempo que nos fornece o elemento essencial para que possamos materializar esse potencial de moldagem. O calor! No entanto nem sempre o tempo é sinónimo de calor, por vezes deparamo-nos, no decorrer da nossa existência, com situações adversas aqui personificadas em “baldes de água fria”. São acontecimentos que nos trazem sofrimento e nos tornam mais defensivos, menos ávidos do novo, mais rotuladores. Enfim são experiencias que, por serem frias, nos retiram capacidade de moldagem deixando-nos menos ricos, ou pelos menos com menores possibilidades de nos enriquecermos pelas diversas oportunidades com que a vida nos presenteia.

Mas então como evitar que os “baldes de água fria” nos retirem potencial de riqueza pessoal? A questão é boa mas temo que a resposta deixe a desejar. Vou, no entanto, arriscar opinar.

Se tivermos por regra ter a nossa plasticina aquecida a, por exemplo, 40 graus, e esta for sujeita a “um balde de água fria” seja, um arrefecimento de 15 graus ela perderá, claro, elasticidade. No entanto se tivermos a nossa estrutura pessoal preparada, habituada e focada a estar permanentemente na estufa dos 40 graus, após o choque inicial, rapidamente nos voltaremos a concentrar na estufa dos 40 graus e rapidamente reconquistaremos a elasticidade perdida. Em termos mais simplistas; se perante uma adversidade não nos focalizarmos apenas na desgraça que esta constituiu e voltarmos rapidamente ao caminho inicial, a desgraça constituirá apenas um contratempo. Mais simplisticamente ainda; se nos concentrarmos em todas as coisas boas que já nos aconteceram antes da desgraça, e perante a ocorrência da mesma tivermos o discernimento de não perdermos a autoconfiança facilmente ultrapassaremos a adversidade e nos tornaremos mais fortes. Pois a amplitude de temperatura tem o condão de tornar os materiais mais fortes e mais coesos.

Por último os sonhos são o elemento que enformam a plasticina. É através deles que nos moldamos de dentro para fora e que nos pomos a jeito de receber a adequada moldagem de fora para dentro, ou moldagem social, que virá complementar e amplificar a moldagem desejada por cada um. É simplesmente colocarmo-nos no local certo à hora certa e não confiar tudo à ventura. Aquele que sonha e persiste mais facilmente vislumbrará e agarrará as oportunidades que aquele que navega ao sabor da circunstancia.
No entanto a moldagem deve ser perfeita, não devem existir brechas no molde, nem o nosso molde perfeito deve ser construído à custa dos materiais de outros moldes. Ou seja, devemos ser consistentes e coerentes e não devemos deixar que a prossecução dos nossos sonhos destrua os sonhos dos outros.

SE O TEU AMOR CAMINHAR PARA O PRECIPICIO EMPURRA-O

Quando vemos alguém caminhar para um precipício ou à beira dele a nossa primeira reacção é impedir a pessoa de o fazer. Explicar-lhe que é perigoso e que nada vale esse risco. É o nosso instinto de sobrevivência transvestido de paternalismo que nos leva a tomar essa atitude. É obvio que se gostamos muito não queiramos que essa pessoa se magoe. Também não é menos líquido a necessidade que todos sentimos de dar conselhos. Espalhando a nossa verdade como se ela fosse absoluta e assim cumprindo um dos desígnios da nossa vida terrena. Escrever um livro ou vários através da oralidade. Perpetuamos a nossa existência cada vez que pensamos estar a ajudar os outros com conselhos não pedidos. Mais não estamos a fazer que tentar impor ao mundo as nossas ideias ou filosofia. Aconselhar é, portanto, um acto puramente egoísta.

No entanto por mais argumentos que apresentamos para convencer alguém de que o caminho não é por ali, de que o precipício lhe pode causar graves danos, de que está a proceder mal, a única resposta que obteremos, por vezes não verbalizada é certo, será uma rotunda negativa aos nossos conselhos. Essa nossa atitude protectora e directiva não é diferente de manter um pássaro numa gaiola apenas para nosso bel-prazer. Preocupamo-nos com a felicidade e o bem-estar do pássaro ou com o nosso prazer por o ouvir cantar? Podemos até dar-lhe alpista de ouro que nunca gostaremos dele a sério e não passaremos de inseguros egoístas.

Gostar realmente muito de alguém é algo de dificuldade extrema. Por isso só amamos uma, duas ou três vezes se formos muito sortudos. Apenas temos três ou quatro amigos se formos afortunados e se aceitarmos o esforço do constante cativar. Mas esta dificuldade advêm sobretudo da necessidade de deixarmos essa pessoa amada, a amizade também é amor, fraternal, mas ainda assim amor, caminhar para o precipício sem que lhe digamos “…não vás por ai!”. De facto se amarmos mesmo devemos até empurrar um pouco a pessoa para o precipício, assegurando-nos claro está que existe uma rocha saliente ou um ramo de árvore onde essa pessoa se possa agarrar na queda e evitar ferimentos mortais. Caso não exista essa rocha ou ramo de árvore devemos cavar na escarpa para construir esse amparo. Mas sem que nunca o nosso amigo(a), ou amado(a) saibam que o fizemos.

Claro que o ramo de árvore ou a saliência na escarpa não nos garantem 100% de segurança de que não percamos a pessoa. A hipótese de a pessoa os falhar na queda existe e é substancial. Por outro lado se a pessoa ao cair se segurar no ramo ou na saliência e tudo correr bem terá crescido e apreendido. Também esse facto nos pode levar à perda da pessoa. Mas amar verdadeiramente é mesmo isso, é regar quando a planta é pequena, é fazer o outro crescer mais do que nós próprios, é criar um filho e aceitar que um dia ele seguirá a sua vida e nós nunca lhe cobraremos nada. Amar é aceitar o caminho do outro, mesmo que seja diferente do nosso; abrir os braços e aperta-lo contra o nosso peito se por ventura o reencontrarmos. É aceitar caminhar por atalhos para poder caminhar lado a lado.

Sabe-se que se ama quando aguentamos o aperto no peito de ver o outro cair e se preciso for o (a) empurramos um pouco.

sábado, janeiro 14

Era uma vez um General


Era uma vez um General que comandava as suas tropas de forma impar. Dava pelo nome de Edward e tinha aquele estilo british rígido camuflando um grande coração e uma maior compreensão e respeito pela vida. Era conhecido por encarar as batalhas com tácticas agressivas e tinha quase 100% de sucesso nas batalharas travadas. Era destemido, não se limitava a gizar a estratégia da batalha. Fazia-o antes do começo da batalha e depois juntava-se aos seus soldados sendo apenas mais um do grupo. Protegia o flanco de qualquer dos seus soldados, dava o peito às balas por todos e sabia que cada um faria exactamente o mesmo por ele. O seu exército estava habituado a vitórias rápidas e limpas.

A guerra tinha começado no inicio do verão quando os inimigos, sé é que numa batalha os há verdadeiramente, uma vez que tudo se resume apenas a homens a lutar contra outros homens, invadiram o país do nosso General. Após duras batalhas para rechaçar a invasão e o medo, levantar a cabeça e recuperar o ânimo, foi ideada uma estratégia de contra ataque.

Decorriam os primeiros dias Agostinos quando o ataque foi completamente rechaçado e o exército invasor bateu em retirada levando no seu encalço os homens do General Edward. Numa fantástica reviravolta tinham agora passado de invadidos a invasores e perseguidores. As batalhas decorriam agora nas frias estepes da Sibéria. O Outono anunciou-se, chegou e ficou. Entretanto as vitórias sucediam-se e cada vez mais o exército de Edward se embrenhava em território inimigo. O Outono via já claramente os seus últimos dias chegarem e o inverno, apressado e fustigador como sempre fazia-se já sentir. O frio era já de difícil suporte. Mas não esqueçamos a bravura dos homens de Edward e a confiança que o percurso vitorioso lhes incutia.

Novembro era ainda recém-nascido quando após uma grande batalha em que tudo correu de feição Edward reuniu os seus capitães e comunicou-lhes a sua intenção de retirada imediata. Os olharam de incredulidade e confusão dominavam a reunião. Os capitães não podiam acreditar que o seu destemido General estivesse agora acometido pelo medo e quisesse retirar. Logo agora que faltava muito pouco para chegar à capital do pais invasor. A incredulidade deu lugar a veementes protestos. Os ânimos exaltaram-se, as ameaças de revolução conta a decisão jorravam da boca de cada capitão. Enfim, a posição do General ficou difícil.

Quando a situação estava já á beira do descontrolo o General abandonou a tenda, seguido pelos reclamantes capitães e enfrentou o exército. Tomou a palavra:

- “Há um tempo para o ataque e o avanço, para o resguardo e o restabelecimento. Sei que neste momento só pensais que se retirarmos agora teremos de voltar a travar batalhas inúmeras para voltar a chegar aqui. Sei que o medo não vos assiste e conheço a valentia de todos os que partilham o campo de batalha comigo. Sei também que mais difícil que guerrear é confiar cegamente em alguém e admitir a nossa necessidade de restabelecimento. Sei que agora só vedes os kms que teremos de tornar a calcorrear. Sei que pensais no inglório esforço dos vossos camaradas que tombaram. Mas mesmo consciente de tudo isto peço-vos que sejais agora mais bravos que nunca e reconheçais a necessidade de vos restabelecerdes. Peço-vos que confieis cegamente em mim.”

O silêncio foi geral. A raiva da impotência mareava os olhos de cada um. Mas a bravura destes homens prevaleceu e todos acataram a ordem do seu General e bateram numa retirada controlada até estabelecerem trincheiras em terrenos menos gélidos. Passaram o resto do inverno a restabelecer as forças. Duvidaram mas nunca ousaram por em questão quem em inúmeras batalhas nunca os tinha abandonado. Controlaram as movimentações do exército adversário no conforto da trincheira.

A Primavera chegou, instalou-se e aqueceu o corpo e o espírito destes homens renovados. Tinham enfrentado as suas limitações, tinham lidado as investidas da dúvida e tinham confiado o que lhes era mais caro nas mãos de um só homem. Estavam serenos e sentiam-se mais fortes que nunca. Tinham combatido e vencido os seus demónios naquele inverno. Era agora tempo de prosseguir o que tinham interrompido.

Animados pelo calor primaveril e pela serenidade que só o auto-conhecimento trás empreenderam nova ofensiva e batalharam com confiança. Ganharam a guerra, depuseram o opressivo regime daquele país e antes de regressarem às suas casas e amadas famílias cuidaram dos feridos indiscriminadamente. Da mesma forma partilharam os mantimentos. Aqueles homens tinham ganho a maior batalha das suas vidas. A do auto-conhecimento e aceitação da sua condição humana e das limitações a ela agregadas.

Eram sem dúvida mais fortes e valentes agora! Quanto a General Edward retirou-se de mansinho e deu lugar a que outros líderes emergissem. No entanto nunca deixou de estar com os seus homens em momentos de necessidade.

sábado, janeiro 7

Por vezes temos de fazer algo realmente mau


Por vezes temos de fazer algo realmente mau só para conseguirmos continuar a viver. Estabelecendo esse momento como referência do nosso pior para que, doravante, alinhemos as nossas acções e comportamentos por uma bitola mais elevada.

Nos momentos de marasmo e deriva, em que o sentido parece ter deixado de existir necessitamos do espírito de missão para corrigir o mal que fizemos e conseguir avançar. Assumindo como objectivo de caminhada a reparação desse mal. Fazemo-lo inconscientemente claro, mas com a consciência de que 80% das nossas decisões, acções são comandadas pelo inconsciente. É um subterfúgio, claro! E de certeza que existirão milhares de outros subterfúgios mais úteis á sociedade e a nós próprios que servirão o propósito de dar um novo sentido à vida. Podemos dedicar-nos a uma causa, a um trabalho, a uma paixão mas lá no fundo ficará sempre aquele alicerce torto e fragilizado sobre o qual estamos a refundar a nossa vida. E como diz sabiamente o povo: “O que nasce torto tarde ou nunca se endireita”.

Temos de sentir, a frio, a dor do corte, o pastoso e frio coalho do sangue que dele brota. Temos de deixar um tsunami invadir-nos que não deixe alicerce algum em pé. Só nessa altura atingimos o nosso limite e em situações limite conhecemo-nos a nós como nunca ousáramos fazer. Temos de aceitar a ruptura do nosso paradigma e aceitar que um novo paradigma possa emergir, suplantando a teoría-lider vigente por uma nova visão da realidade. Estaremos então prontos para reconstruir consistentemente o nosso rumo, reparando os danos causados e adoptando a oposição a esse mau momento como linha orientadora de conduta.

quarta-feira, janeiro 4

RISCOS


O risco pode trazer-nos coisas boas ou más ao passo que o comodismo apenas nos trará as más.

O comodismo é como o whisky, traz-nos vários momentos de prazer mas se abusarmos dele, a médio prazo acaba por nos matar silenciosamente. Primeiro suga-nos o entusiasmo, depois a vontade e por fim a energia do lânguido movimento.

Se tivesse de atribuir cidadania ao comodismo diria que ele é italiano e habita em Veneza. Não porque tenha algo de nobre e festivo mas porque está habituado a usar mascaras e disfarces. Primeiramente mascara-se de serenidade, de conforto ou estabilidade, depois vai derivando para o pateta alegre deixa andar e por fim somos já nós próprios a mascará-lo de um infindável leque de desculpas.

A principio o comodismo alimenta-se de nós, da nossa energia e vontade própria, depois passa a ser diligentemente alimentado pelas nossas cedências mascaradas de flexibilidade e maturidade, pela nossa resignação transvestida do louvável esforço necessário à construção sólida, pela fatalista crença de que a mudança apenas nos trará algo pior, pela companhia surda que apenas disfarça a solidão pelo barulho do pesado respirar do outro. A certa altura o monstro já está gigante e nós apenas vivemos para o alimentar. Em verdade não sabemos, agora, fazer outra coisa. Alimentá-lo mitiga a nossa dor na medida em que a disfarça e ao mesmo tempo alicerça a solidão e o medo dela, que tornaram as fundações do nosso ser.

De que vale ter a chave de casa para entrar se lá dentro alguém não nos espera? De que valem dois pratos na mesa se em cada um reside uma receita diferente? De que vale um estado civil já “desvirgado” se nunca conheceu o prazer da partilha? De que vale ter alguém para ir jantar fora se a refeição é feita de silêncio? De que vale ir se o nosso destino não for tido em conta?

Por vezes a ilusão de companhia não passa disso mesmo, de uma ilusão!

quinta-feira, dezembro 1

E SE...

E se não deixássemos passar a oportunidade de dizer amo-te
E se o disséssemos sempre que o sentíssemos
E se não reduzíssemos os sonhos a pequenos momentos de evasão
E se no meio da multidão não desistisse de te procurar encontrando-te
E se um olhar de palavras não carecesse
E se fossemos ajudados quando precisamos e não quando estamos bem
E se olhar o céu não fosse um luxo
E se o por do sol não fosse uma coisa de fotografia
E se dar a mão fosse mesmo sentido e não força de hábito
E se os 40 km até ao mar da Figueira não fossem uma desculpa
E se fazer não fosse apenas um verbo
E se o medo não paralisasse
E se menos que tudo não fosse admitido
E se fosses apenas tu
E se fossemos felizes com o que temos e não com o que queremos
E se sorríssemos a um estranho
E se ser solidário não fosse comprar arroz e salsichas para o banco alimentar
E se fossemos capazes de pensar e agir em grupo
E se o teu bem fosse o meu e o meu o teu e dos outros
E se o salário mínimo não fosse mais que um dado histórico
E se pagar as dívidas fosse norma
E se fome não fosse mais que uma hipérbole de vontade de comer
E se a cor da pele fosse apenas uma questão de pintura
E se o Obama fosse lenda apenas pelas suas acções
E se eu abdicasse do remanescente das 100 grs de carne e elas fossem parar à tua boca de quem as tens de menos
E se dar fosse o primeiro passo para receber
E se o umbigo não fosse mais que uma parte do corpo desprovida de utilidade
E se chorar fosse permitido
E se as fraquezas assumidas fossem uma virtude e não uma desculpa
E se os beijinhos viessem aos mil
E se o carinho não fosse um luxo
E se os especuladores fossem presos e os políticos responsabilizados
E se pessoas como o Sílvio Berlusconi não fossem admiradas
E se o Sócrates se deixasse de estudar e se enclausurasse na cadeia
E se o Alberto João fosse banido da televisão
E se a politica fosse coisa cívica
E se não existisse o facebook
E se a televisão passasse apenas desenhos animados
E se o MSN não fosse um esconderijo
E se a internet não servisse para descarregar musicas e filmes sem pagar
E se mesmo que servisse pagássemos de livre vontade
E se o dinheiro servisse para dar conforto aos outros
E se plantar uma árvore não fosse uma excepção
E se brincar não fosse só coisa de criança
E se a terra do nunca fosse a nossa casa
E se esta lista tivesse um fim não seriamos mais felizes?

domingo, novembro 27

QUEM PRECISA DE GUARDA CHUVA ?…


"Viver não é esperar a tempestade passar... é aprender como dançar na chuva". Embora não seja uma frase minha concordo completamente com ela. Porque é proibido chorar sem aprender, levantar-se um dia sem saber o que fazer, não lutar pelo que se quer. Viver é também ser humilde para usar palavras de outros como se nossas fossem, assumindo o plágio sem pejo e sobretudo aprendendo com o ponto de vista do outro.

Viver é aceitar cair, esfolar os joelhos, esmurrar o queixo, é acariciar uma cara com um suave beijo furtivo, é aceitar um curativo, é assumir que depois de andar à chuva virá uma constipação. Assumir e aceita-lo naturalmente para não nos impedir de na chuvada seguinte voltarmos a sentir o beijo fresco das gotas de água na face. Viver é não saber andar com guarda-chuva, é não sacrificar o prazer do girar o guarda-chuva a uma camisola seca. Viver não é prudência nem cautela, é aceitar que os nossos actos têm uma consequência e não deixar de os praticar por isso. É proibido abandonar tudo por medo.

É proibido não rir dos problemas, contornar a poça de água e resistir a saltar lá para dento de “chapão” para nos molharmos e a quem nos acompanha. É proibido desviar o carro de um lençol de água se nos der prazer sentir a água bater no pára-brisas e afastar-se em dois arcos. É proibido ter acidentes e colocar a vida de outros em risco. É proibido não demonstrar amor, deixar os amigos, chamá-los somente quando se necessita deles. É proibido não seres tu mesmo diante das pessoas, fingir que elas não te importam, esquecer aqueles que gostam de ti, ter medo da vida e de seus compromissos.

Não há almoços grátis! Pois, a vida apesar de ser uma dádiva não deve também ser entendida como grátis. Se alguém ou Algo nos presenteia com algo tão precioso é mais que justo que, no mínimo, exija que o desfrutemos por inteiro, vivendo cada dia como se fosse um último suspiro. Portanto não há vidas grátis!

Aceita a cobrança naturalmente, abandona a expressão “mais vale quebrar que torcer”, tão cara aos da minha terra, mas que eu não aceito como válida. Tentem pegar um toiro, indo para a reunião com o toiro de corpo rijo e hirto e depois contem-me o que aconteceu. Para domar o bicho é preciso ser flexível para encaixar o primeiro embate, ser resiliente e tenaz para fechar-se na cara do toiro, após se ter furtado à córnea e amortecido o choque da investida, e ter a humildade de compreender que cabe “aos ajudas” a tarefa de imobilizar o touro para que a pega se considere realizada. Afinal viver não é mais que uma sucessão de pegas de toiros.

É por demais evidente neste texto a minha apetência por chuva e por rebeldia. Já opinei sobre o que é viver permito-me agora alvitrar sobre o que é amar. Sabemos que amamos e quem amamos quando, naturalmente, nos apercebemos, um dia, que deixamos de gostar do inverno e da chuva. Passando a consultar diariamente o boletim meteorológico e a ansiar pelo sol, pela primavera e pelo verão. A nada disso fomos obrigados, simplesmente constatamos essa mudança natural em nós.

sábado, novembro 26

DIAS QUE VALEM A PENA


Há dias que valem a pena. Por nada de especial e por tudo. Por um olhar o céu e fixar uma estrela abandonando os olhos na negra imensidão, sarapintada de luzinhas que nos atraem ao infinito São uns segundos é certo. Mas tempo suficiente para nos amolecer a alma, descomprimir os músculos e deixar cair a armadura. Sim valeu a pena por aqueles instantes onde o sabor da passa no cigarro se mistura com a satisfação de devorar aquele momento só nosso e das luzinhas. Mil pensamentos nos ocorrem, livres e desformatados. Uma última passa no cigarro que ardeu depressa de mais, um arremesso da pirisca para o canteiro, num acto de inocente e parva rebeldia que nos sabe pela vida.

Um deambular pelas divisões do ninho, ás escuras mas sabendo exactamente onde estamos e para onde vamos. Sem medo de errar, porque o que temos a perder ou a evitar mais não é que um pequeno galo na testa que chocou com a porta. Abrimos a cama, descansamos os ossos e o pensamento foge-nos para o travo daquela ultima passa. Esvazia-nos e invade-nos de tal maneira que uma fuga nua para o gélido e acariciador ar da varanda nos parece perfeitamente exequível. De tal forma que saltamos da cama e vamos, nus e descalços, satisfeitos pela pequena diabrura que a nossa ida constituiria aos olhos da nossa amada mãe.

Há dias assim, não há que esconder, recear palavras, amar ou sofrer, ocultar sentidos para no vazio, entrecortado pelo fumo, o nosso pensamento deixarmos correr.

segunda-feira, novembro 21

A REGRA DA “PLASTICINIZAÇÃO” DA PERSONALIDADE


«Nascemos todos com vontade de amar. Ser amado é secundário. Prejudica o amor que muitas vezes o antecede. Um amor não pode pertencer a duas pessoas, por muito que o queiramos. Cada um tem o amor que tem, fora dele. Quando tentamos amar agimos de forma confusa, trocando o amor pela paixão, a paixão pelo desejo e a nossa personalidade por aquela que o outro idealiza em nós. Confusão gera confusão e o universo evoluiu do caos. Se a confusão do amor com a paixão e desta com desejo é caos e, portanto, positiva, pois promete ser o inicio de algo. Na medida em que amar é sem dúvida um batido de desejo, paixão e amor. Na descoberta da quantidade certa de cada ingrediente é que está a ciência. Abanar o shaker é fácil. A confusão da nossa personalidade com aquela que o outro espera de nós é um caos regressivo, cujo desfecho será sempre a explosão, a cobrança e o esmorecimento.
Amar é completar o outro sem fazer concessões basilares a nós. Completar e preencher são distintos. Podemos completar, tornando a nossa personalidade plasticina aquecida e moldando-a exactamente na forma que o outro gosta, mas jamais o estaremos a preencher. Preencher é um acordo tácito, cuja negociação não reconhece à concessão um papel de relevo.

A “plasticinização” da personalidade é terreno fértil para o germinar da cobrança. Essa erva daninha que vai crescendo e apoderando-se da relação, asfixiando, sorrateiramente, as outras plantas que ornamentavam e davam cor ao amor desses dois. Quando o que plasticinou a sua personalidade se apercebe da existência da erva daninha já esta tomou conta dele e o levou a cobrar todo o fertilizante e dedicação que colocou na relação. A harmonia cedeu o lugar à acusação e recriminação. Apouca-se a contribuição do outro e engrandece-se a nossa, desequilibrando a balança da razão e do coração.

Toda a regra tem excepção e neste particular também há lugar à capacidade de nos colocarmos em segundo plano, orientando a nossa actuação, apenas e só, em prol do outro. Não há mal em, perante algumas situações, abdicarmos de nós e cedermos o palco ao outro que a nosso lado caminha. Tal como não há mal em ser bengala quando a “força nas canetas” parece fugir ao nosso(a) companheiro(a), saibam ele ou ela usar a bengala com sabedoria e ter a coragem de aceitar, sem pejo ou estéril prurido, o apoio que ela lhe fornece. Ambos devem sempre ter presentes três conceitos fundamentais: o carácter de excepção, a humildade e a reciprocidade.

Depois de abordar os nocivos efeitos do não respeito da regra e de enquadrar a excepção falta apenas definir a regra:
Dois só conseguem ser uno se cada um for uno per si!

sábado, novembro 19

AFINAL O SR CARLOS MARTINS ESTA É A AJUDAR-NOS A TODOS E É FACIL AJUDAR.


Muitas hipócritas reacções tenho ouvido e lido relativamente ao apelo lançado pelo jogador de futebol Carlos Martins, figura pública, para encontrar um dador de medula óssea que permita curar a aplasia medular que acomete o seu filho. A grande maioria dos comentários hipócritas alinham pelo diapasão de que apenas se está a fazer tanto alarde da questão porque a criança é filha de uma figura pública que se socorreu dos media para lançar o apelo aos possíveis dadores. Sejamos francos, qualquer pai recorreria a tudo o que pudesse para salvar um filho. Este pai pode recorrer aos media e fá-lo sem pudor pois a sua cria corre risco de vida. Ninguém ouse critica-lo porque se o fizer não estará a ser verdadeiro e incorrerá em hipocrisia grave.

Segundo notícias de hoje, fruto da campanha mediática e das redes sociais, o número de dadores de medula óssea aumentou cerca de dez vezes. Só por este dado concluímos que o Sr. Carlos Martins está a ajudar também cada um de nós. Nunca sabemos se amanhã não nos toca a nós semelhante adversidade. Quanto maior for o banco de dadores maiores serão as nossas hipóteses.

É precisamente sobre a questão da dimensão do banco de dadores que me quero debruçar. Pelo que li, e assumindo-me como leigo que sou nesta matéria, basta uma colheita de sangue e o preenchimento de um formulário de 4 paginas para que se possa determinar o nosso tipo de medula e para que entremos no banco de dadores. Não duvido que somos um país de gente solidária com uma enorme capacidade de mobilização em torno de uma causa. Não é menos verdade que poucas vezes fazemos uso dessa capacidade de mobilização. Somos o país da Via Verde, dos multibancos em cada esquina, da rede europeia de multibanco que mais funcionalidades oferece ao utilizador, enfim, amamos e prezamos tudo o que nos facilite a vida. O nosso povo tem tanto de boas intenções e de solidário como de preguiçoso.

Pegando no exemplo da Via Verde e dos multibancos sugiro que façamos o mesmo relativamente á constituição de um banco de dadores de medula óssea. Ou seja que facilitemos a vida às pessoas. Todos nós pelo menos uma vez por ano fazemos análises clínicas e nos sujeitamos aos exames da medicina do trabalho. A minha sugestão é que quando formos fazer essas análises nos seja colocado o tal questionário à frente e nos seja proposto ser dadores. Perderemos mais dez minutos a preencher o questionário e provavelmente tirar-nos-ão um pouco mais de sangue. Sacrifício pequeno face ao benefício. Atrevo-me a alvitrar que 80% das pessoas aceitaria perder esses dez minutos e entraria para o banco de dadores.

Estou consciente que a implementação de um programa destes acarretaria um avultado investimento estatal. Mas a este possível óbice replico; autorizemos também o nosso governo a comercializar a medula óssea com outros países. Desde que o dador nada receba pela dádiva e o receptor nada tenha que pagar pela medula estou-me marimbando que o nosso governo comercialize a minha medula óssea se os proveitos dessa comercialização servirem para pagar os custos da implementação e manutenção do banco de dadores.

Adivinho já os inúmeros argumentos, críticas e dúvidas éticas que os defensores de regras bacocas mascaradas de ética terão na ponta da língua para provar que a minha sugestão não tem pés nem cabeça. Replico uma vez mais com simplicidade. Perante uma doença grave quantos desses não recorreram já a uma clínica privada, nacional ou estrangeira, que tenha desenvolvido um método de abordagem à doença mais eficaz? E quantos milhares de euros pagaram por isso? Alguém alguma vez pós em causa que se essa clínica tem um método mais eficaz de combate a uma doença não devia cobrar verdadeiras fortunas pelo tratamento? Devendo, pelo contrário, entregar o método gratuitamente ao estado para que este esteja acessível a todos. Não, claro que não! Porque compreendemos o valor da propriedade intelectual e das patentes e sobretudo porque quando nos vemos aflitos recorremos a todos os meios sem questionar nada. Nada mais que isto está a fazer a família do Sr. Carlos Martins.

Facilitem-nos a vida que nós não regatearemos na generosidade e solidariedade tão marcadamente inscritas no ADN português.

quinta-feira, novembro 17

PALAVRAS, LEVA-AS O VENTO.


As palavras são vãs, não se bastam por si. Quando aplicadas num livro carecem da folha para se perpetuarem, a folha necessita do aconchego da capa que enforma o livro e a mantém no lugar onde faz sentido. O livro carece de aquisição, de ser folheado, amassado, dobrado e acarinhado. Na música necessitam da melodia para transmitir o sentimento e a melodia, por sua vez, não existe sem o movimento ritmado do dedilhar de uma guitarra.

A escrita e a musica são os dois principais veículos da palavra e aqueles onde a perenidade e a substancia encontram terreno mais fértil para se implantarem e ganharem sentido. Mas mesmo nestes dois férteis veículos a palavra só por si é vazia. Quando escrita carece do manuseamento do livro para transmitir a sua substancia. Quando musicada não dispensa o ritmo e este só acontece fruto da coordenação do movimento do musico. O denominador comum á substancia da palavra é a acção, traduzida no folhear do livro ou nos movimentos que alimentam os instrumentos musicais.

A palavra sem acção é vazia. Esgota-se num emaranhado de orações, temperadas pela eloquência da metaforização, que mais não constroem que uma simples bola de sabão. É, sem dúvida, lindo observar as cores que o banho de sol traz à bola de sabão embalada nos braços do vento, mas também não é menos efémero. Dura uns escassos segundos, rebenta e depois não sobra nada a não ser um salpico de humidade. Assim é a palavra; Bonita e efémera! Palavras leva-as o vento diz o povo com propriedade.

Acreditamos no eloquente discurso de um político desconhecido ou nas frases curtas e monocórdicas do Cavaco Silva? Retirando toda a carga politica da analise atrevo-me a responder por todos vós.
– No Cavaco Silva claro! Pois ele faz, age, escolhe, prioriza e sobretudo já recorreu, certamente, vezes sem conta, ao sacrifício para credibilizar as suas mal amanhadas palavras.

Vale mais uma acção que mil palavras! É sem dúvida uma frase feita. Socorro-me dela para basear o meu pensar e permito-me acrescentar-lhe algo, fazendo dela, hoje, o meu pequeno grito.
Valem mais uma acção, um esforço e uma pequena gota de suor que um bilião de palavras.

domingo, novembro 13

RESTA-NOS TENTAR IMITAR O CINDERELA MAN, OS SEUS IDEIAS E MOTIVOS.


O pugilismo é um desporto violento. Muitos idolatram-no, outros acham aberrante e desagradável ver um ser humano a bater noutro seu igual. Eu não vou fazer juízos de valor, limitar-me-ei a encontrar paralelismos entre o pugilismo e o dia-a-dia.

As diferenças entre um combate de pugilismo e o dia-a-dia são ínfimas quando observadas por um olhar lato. Efectivamente, o dia-a-dia é feito de pequenos ataques, de capacidade de encaixar golpes, de sofrimento, de capacidade de bailar, de nos esquivarmos, de estar sempre em movimento, de jogo de cintura, de saber aparar o golpe para a seguir ripostar. Sendo o ripostar não o bater no outro, mas sim o saber encaixar os golpes da vida, saber ir ao tapete e ripostar. Não batendo na vida, mas apenas reerguendo-nos para voltar a dançar, a gingar. Este é para mim um ripostar mais forte do que dar um soco bem assente.

Os bons pugilistas vão sempre a jogo. Mesmo após terem levado a maior sova, após aquele “ko” mortífero. No combate seguinte olhamos para eles e estão lá como sempre estiveram. De peito aberto, dispostos a levar pancada, a sofrer, a gingar como sempre, a atacar com lealdade e sobretudo a dar o melhor espectáculo e a vive-lo intensamente. Estes são os campeões.

Depois temos aqueles que após terem sofrido um “ko” vão para o combate seguinte cheios de manha e, essencialmente, preocupados em defender. Quando alguém vai com uma postura meramente defensiva, por um lado, dá mau espectáculo, o público não gosta, por outro lado acaba por não entusiasmar ninguém nem a sí próprio. É possível ganhar alguns combates com uma postura meramente defensiva. Mas com o passar do tempo as técnicas de defesa vão sendo percebidas pelos adversários e acabará por vir o dia em que irá ao tapete.

Na vida também acontece o mesmo. Todos nós levamos de vez em quando um “ko”, uns mais frequentemente que outros, mas todos vamos ao tapete um dia. Depois de estar no chão temos duas formas de reagir ao combate seguinte. Ou nos tornamos defensivos e matreiros ou vamos ao combate com a mesma vivacidade, com a mesma disponibilidade para dar espectáculo, para gingar num bailado alegre, suave e ritmado. Suaremos alegria, vontade e determinação e nunca seremos toldados pelo véu do medo de voltar a ir ao tapete. Não sou lírico ao ponto de afirmar que se vá ao combate seguinte com a mesma ingenuidade da primeira vez, mas acredito piamente que temos de ir sem excesso de protecção, senão nunca compreenderemos que menos que tudo é pouco mais do que nada, e, mesmo, mantendo-nos em pé, cairemos, sem sentir a queda, no abismo do conformismo. Atacar é a nossa génese, enfrentar o adversário olhos nos olhos é o nosso hábito, não deixemos por preço algum que este “é” passe a “era”.

Existem cada vez menos boxers não defensivos e não resignados. Até o Mike Tisson acabou por se tornar um atleta defensivo e em vez de terminar a sua carreira no auge, terminou-a quando a resignação e a manha o consumiram a tal ponto de ter perdido a integridade que lhe permitia manter-se em pé e gingar. Não tomou as rédeas, deixou-se apenas levar. Terminar uma carreira no auge não significa termina-la com uma grande vitória mas sim termina-la com a mesma atitude, postura e vivacidade com que a iniciamos. Temos de saber sair com a mesma garra que levou as pessoas a acreditar em nós, com a mesma disponibilidade para sofrer, para dar espectáculo, para dar luta. Isso sim é sair no auge, mesmo que saíamos após quatro ou cinco “ko” com inúmeros ossos partidos que deformarão o corpo, moldando-o com o cinzel do sofrimento. Mas a atitude não foi tocada, nenhum cinzel consegui a conseguiu moldar. É esta capacidade de manter a atitude virgem e pura que distingue os grandes dos suficientes. Mesmo que estes últimos ganhem mais.

Infelizmente cada vez mais encontro atitudes moldadas e quebrantadas, mais adeptos da “defesa ser o melhor caminho para vencer”. Então e a surpresa? E a emoção? E os fundamentais? Matamo-los em nós? Matamos a surpresa e desejamos ao mesmo tempo que ela esteja presente. É tipo acreditar em fantasmas. Porque matamos em nós a capacidade de surpreender mas estamos sempre á espera de ser surpreendidos. Matamos a surpresa mas esperamos que ela nos apareça. Um morto que volta a aparecer mais não é que um fantasma. Um daqueles fantasmas que nos invadem a consciência, tornando-a de tal forma pesada que parece que transportamos o mundo às costas.

Ora dado que quase toda a gente matou já em si a capacidade de surpreender e essa mesma gente anseia por ser surpreendida, ficamos perante um problema de impossível resolução matemática. Resta-nos aceitar os fantasmas como críveis e deixarmo-nos invadir por eles. É bizarro e aberrante, eu sei! Mas não me ocorre nenhuma solução mais verosímil. A não ser jogar limpo e atirar as armaduras para longe dando o peito á bala, surpreender o outro, dar o primeiro passo e seja o que Deus quiser. Vamos novamente para o ringue. Quem já levou três ou quatro “ko”, quem já caiu três ou quatro vezes pode perfeitamente cair uma quinta vez. Vai doer na mesma? Vai sim! A vantagem é que já apreendemos a cair melhor e em vez de batermos com a cabeça batemos apenas com as costelas, mas ficaremos sempre com algo partido, por isso dói. Se os primeiros quatro “ko’s” não nos mataram também não há-de ser este quinto a faze-lo. Alem disso, a recompensa compensa largamente o risco.

Se não quisermos aceitar os fantasmas nem quisermos jogar limpo resta-nos, de cada vez que subimos ao ringue, aceitar as vaias do público e começar a lutar em campeonatos secundários. Ir ganhando algum para sobreviver. Não levamos muita pancada, não ficamos muito negros, mas também não deixamos ninguém “ko” e sobretudo não apaixonaremos ninguém. Sobretudo não apaixonamos ninguém! Este é um preço demasiado alto a pagar por não querer levar pancada. Demasiado alto mesmo!

O arco-íris apaixona, o céu cinzento apenas deprime. O arco-íris, inspira, encanta, maravilha-nos e faz-nos suspirar. O céu cinzento limita-se a tirar-nos a vontade de sair de casa. E se não saímos de casa nada de mal nos poderá acontecer, mas andaremos deprimidos e acabrunhados. A satisfação de um suspiro é impagável, vale por mil “ko”.

Os fantasmas não existem, as coisas não ressuscitam depois de as matarmos, portanto, resta-me não matar a minha capacidade de surpreender, não ter medo de levar pancada e nunca deixar de tentar imitar o Cinderela Man (ver link), os seus ideais e motivos.

domingo, novembro 6

A FÁBULA DA FONTE


Era uma vez uma fonte de água cristalina, fresca e saborosa. Uma fonte que dia após dia saciava a sede de uma aldeia inteira. Mais do que saciar a sede aos habitantes ela alimentava a aldeia inteira, pois com a sua água regava os campos, saciando também a sede às culturas que por sua vez haviam de saciar a fome dos habitantes.

A génese de todas as fontes é a generosidade, é o dar sem pedir em troca, é, no limite, aquilo que mais se aproxima do amor incondicional pela sua missão e pelo outro. Esta fonte não fugia a esse padrão e diferenciava-se das outras pelo seu empenho e alegria em brotar, dia após dia, a água mais límpida e fresca. Chegou até a fazer um acordo com um vizinho sobreiro, que em troca de rega lhe devia dar sombra para que a sua água se mantivesse fresca. Convidou também coloridos nenúfares e caniços a habitar nela para lhe filtrarem a água e a embelezarem através do seu colorido.

Apesar de todo este empenho, dedicação e disponibilidade nunca nenhum habitante se demorou uns instantes para dar dois dedos de conversa, para perguntar pela sua vida, ou simplesmente para saber se a fonte precisava de algo. Não é que a fonte quisesse um agradecimento ou um reconhecimento, queria apenas não ser tão ignorada e tomada por certa. Anos e anos sem falar, sem estabelecer relações, sem que ninguém nos passe a mão pelo pélo endurecem-nos as entranhas e murcham-nos o espírito.

À esta fonte aconteceu isso, endureceu o espírito, perdeu vivacidade e sobretudo cansou-se de dar. Não devia fazê-lo, é certo! Pois essa é a sua missão. Mas todos temos momentos de fraqueza, todos precisamos que nos cativem e que nos alimentem o espírito. Todos precisamos que nos ajudem a livrarmo-nos das ervas daninhas e da grama que a pouco e pouco nos sufoca e nos envolve num abraço de penumbra.

Esta fonte nunca, sequer, foi limpa por nenhum dos habitantes. Atarefados com o cultivo das suas terras, imbuídos de um, cada vez mais urgente, espírito de competição e ganância, concentraram todos os esforços nas suas terras, no seu umbigo, e esqueceram que a massagem do seu umbigo só podia ser feita com água da fonte esquecida. Tomaram o essencial, para o prosperar das suas culturas e por consequência deles próprios, como dado adquirido e esqueceram o conceito da reciprocidade.

O esquecimento endureceu de tal forma as entranhas da fonte que esta deixou de ter músculo para fazer brotar a água para a superfície e um dia murchou de vez e desistiu. Deixou que a dureza das suas entranhas canalizasse a água para outros lençóis freáticos e simplesmente secou para aquela aldeia. Secou mas não morreu, limitou-se a procurar um terreno mais amolecido, onde as pessoas buscavam a sua água, cavando poços na terra. Demonstrando assim esforço para tê-la como vizinha e companheira. E, nesse local, voltou a brotar água cristalina, fresca e saborosa e a alimentar outra aldeia sem pedir nada em troca.

terça-feira, novembro 1

ESTOU-ME “POSITIVAMENTE A CAGAR”


Já houve tempo em que eu achava que a crise da divida se resolvia com a simples dispensa da metade dos funcionários públicos. Hoje, mais lúcido, percebo que a solução é muito mais simples. Basta que as pessoas passem a julgarem-nos e a entenderam-nos por aquilo que realmente somos e não por aquilo que aparentamos ser.

Estamos em crise porque passamos demasiados anos a tentar parecer o que não somos. Focados em agradar aos outros e obcecados por dar uma imagem de nós que seja bela, socialmente aceitável e invejável. Ora, isto mais não é do que futilidade, falsidade e uma falácia do tamanho do mundo. O que somos realmente só se percebe quando nos olham de perto, de forma aturada, crítica e interessada. E mesmo assim não fugimos ao risco de, quando olhados de perto, todos somos esquisitos.
Estou-me “positivamente a cagar” para as primeiras impressões. Diria mais: “cago de alto” para isso e ainda de mais alto para quem faz desse método a sua principal ferramenta de interacção social. Fúteis e biblots tem o seu espaço próprio e natural; as revistas cor-de-rosa, as novelas e aquilo que na minha terra se chama de “quadrilhice”. A sociedade agradecia, eu pelo menos ficaria eternamente grato, que essas pessoas se confinassem ao seu espaço natural e não contaminassem o resto das maças, ainda sãs, do cesto. Outra boa ideia seria coloca-las em quarentena até que adquirissem algum conteúdo.

Digo que me estou “positivamente a cagar” do alto da torre dos clérigos para a reles teoria de que as primeiras impressões é que contam porque exijo, como requisito mínimo, que se alguém quiser realmente ser importante para mim se esforce para me olhar de perto, aturadamente, e perceba um pouco do meu “eu” escondido pela carapaça. Não é uma grande exigência se comparada com exigir que a pessoa me apareça sempre bem vestida à Chanel e com acessórios a fazer “pandam” ( para os fúteis esta expressão não se usa na escrita, mas pode ser usada na oralidade e deriva da expressão francesa “faire pendant”).

Um pouco de conteúdo não faz alergia pois não? Talvez alguma comichão mas alergia não. Mas voltando a trás e à minha simples exigência, acrescento que os “biblots” e os cães de loiça já estão “demodés” e, sobretudo, rebaixam o espírito. Por outro lado os cães de loiça fizeram ganhar uns bons cobres ao Rouxinol Faduncho. Nestes tempos de crise talvez fosse boa ideia aproveitarem a dica para também ganharem algum com vocês mesmos.

Eu exijo que me olhem de perto e não sou pretensioso por isso. Pois faço o mesmo com os outros. Não me deixo iludir com bons carros, com fatos Chanel, com posturas socialmente correctas ou sorrisos amarelos. Procuro sempre ir ao cerne, para perceber a pessoa como ela é na realidade. Coloco-me por varias vezes no lugar dessa pessoa e observo muito antes de opinar, mesmo que por vezes opine de forma devastadora. Assim sendo não me parece pedir muito que façam o mesmo comigo. Parece-me justo. Certo?

É, também, justo que discorde desta crise e dos euros que querem rapinar. Pois o motivo da crise não é de excesso de divida. Esse é apenas o sintoma, a causa é tão só a futilidade e as pessoas querem fazer parecer algo que efectivamente não são. Qualquer bom médico ou terapeuta dirá que a cura da enfermidade não se faz atacando os sintomas, isso alivia-os apenas, mas sim percebendo e corrigindo as causas.

Assim sendo deixem-se de me subtrair os meus magros euros e, simplesmente, decretem contra o fingimento e metam esses fúteis de quarentena. Sejamos, simplesmente, genuínos, tenhamos confiança no nosso taco e deixará de haver crise.