Falar de sofrimento é sempre um duro exercício, a facilidade de deslizar para o “lugar comum” torna este tema um dos mais complicados de abordar. Acresce a isto o carácter autobiográfico que, aquele que escreve, sempre coloca nas reflexões. Concordo que é impossível tornar qualquer escrito, verse ele sobre sofrimento, amor, ódio ou seja apenas uma simples noticia de jornal, imune aos sentimento e vivencias daquele que o produz. No entanto quando se escreve sobre sofrimento essa influencia é mais marcante e de difícil ludibrio.
Consciente disto não vou sequer ousar separar o que sinto do que vou tentar escrever.
O sofrimento não nos torna mais fortes, nem tão pouco nos torna melhores pessoas, quando muito o sofrimento reforça as nossas defesas criando pequenos muros que formatam nossa personalidade e por conseguinte as nossas acções. É como se nós fossemos uma terra meticulosamente arada e uma outonal, primeira, chuva torrencial comece a abrir sulcos na nossa superfície, antes completamente lisa e plana. A humidade da terra vai desaparecer e os sulcos erraticamente abertos vão ficar definidos e endurecidos. Da próxima vez que chover a água já não alagará toda a plantação pois será conduzida pelos sulcos anteriormente abertos, aprofundando-os, e por conseguinte tornando-os ainda eficazes no escoamento das águas evitando a destruição de parte das plantas que entretanto voltaram a crescer. Ou seja salvar-se-á sempre uma parte da colheita mas nos sulcos nunca mais crescerá nada. Assim, a área fértil do terreno terá diminuído quando comparada com a situação inicial.
Talvez a minha visão seja romanceada mas eu preferia que o terreno tivesse continuado completamente liso e integralmente produtivo. Alguns metros de terreno produtivo se perderam neste processo, mas também é verdade que o terreno ficará agora mais defendido e o agricultor saberá exactamente com que partes dele contar para fazer germinar as sementes. Eu, no entanto, num surto de ingenuidade e inocência continuo a sonhar com o terreno completamente arado.
Talvez apenas as crianças percebam o que quero dizer pois elas, fruto de nenhum inverno ainda terem passado, estão mais abertas a este tipo de ingénuo pensamento.
Ciente da fraca sustentabilidade do que procuro defender e dos argumentos que hoje me abandonam, concluo apenas que eu não gosto do sofrimento.
Certamente a natureza terá mais razão do que eu. Mas nem ela pode impedir que cale o meu descontentamento pela perda de fertilidade, pelos muros que agora me condicionam os ângulos de visão, pela inocência que cada uma das minhas acções perdeu.
Sobrevivo agora, mais ou menos adaptado aos sulcos que me percorrem. Mas sobreviver é menos que viver. E não me falem em tractores e novas épocas de arar o terreno, pois a nossa alma só permite ser desflorada uma vez.
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