As pessoas são complexas e nós complicamo-las mais ainda quando as tentamos perceber. Não que compliquemos o outro é na nossa cabeça que essa complexidade inerente ao ser pensante se eleva ao expoente, quando tentamos compreender o outro.
Ou seja, complicamos algo já de si complexo por natureza. Isto é um contra-senso de primeira categoria. Para perceber algo temos de o olhar no simples, temos de penetrar na sua génese e guiar o nosso raciocino pelos cânones que orientam aquele a quem tentamos perceber. Em vez disso, optamos sempre por procurar entender o outro à nossa imagem, socorrendo-nos de comparações egocêntricas e julgando as diferenças à luz do nosso padrão. Erro, erro e erro!!! Não é necessário compreender, basta aceitar e desfrutar. Cada um é singular e uno, sendo essa a mais grandiosa maravilha da natureza, por isso, comparar é projecto inútil, portador de rótulos e potenciador de decepções.
Julgar é coisa de juiz, trabalhosa, meticulosa e quase nunca justa. Se não formos juiz provavelmente não faremos mais que erróneos juízos de valor quando julgamos à nossa semelhança.
As pessoas não são como a história dos povos. Na história basta compreender o passado para, com alguma certeza, explicar o presente e arriscar projectar o futuro. Nas pessoas esta regra não tem aplicação, pois se é verdade que somos o produto das nossas experiências e vivências, não é menos certo que somos indissociáveis do momento e portanto, podemos ser vários, dentro do uno, dependendo do momento e da circunstância.
Quando observamos uma bela flor do nosso canteiro não nos assola de imediato a necessidade de compreender o porquê da flor, somos antes tomados pela sua deslumbrante beleza e inebriados pelos cheiros que dela emanam. Deixamos que os nossos instintos básicos se sobreponham à razão, somos nesse momento genuínos e simples. Não julgamos a flor por comparação a outras, contemplámo-la, regamos e fertilizamo-la, em suma, imitamos o simples e sábio Principezinho e cativamos aquela fonte de beleza e bem-estar. Só num segundo momento, e se tivermos já deixado que a sociedade nos tenha marcado com a incessante voracidade de tudo racionalizar, compreender e comparar é que vamos julgar o viçoso da planta por comparação com aquela outra que vimos no jardim.
Mas será mesmo necessário passar ao segundo momento e arriscar a decepção? Porque não há-de o prazer da beleza e o odor da flor ser suficiente em si mesmo? Usufruir e cativar preenchem todas as nossas necessidades básicas, tudo o resto corrói, causa sofrimento e, sobretudo, não emana de nós mas é-nos imposto pelo meio que nos rodeia.
Quando somos crianças todos somos Principezinhos e Princesinhas, para quê perder essa sabedoria?
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