Parece que ontem uns doutos americanos catalogaram-nos de lixo. Ora bem, uma afirmação vinda de uma companhia (Moody’s) que em 1907 faliu porque não consegui resistir à crise bolsista da época é no mínimo irónica. Chamam-nos a nós aquilo que eles já foram. Que eu saiba, ao dia de hoje, ainda não vi notícias, mas o nosso canto ainda não teve de ser vendido ao desbarato como eles foram na época. Talvez seja apenas porque é difícil encontrar comprador para uma economia com mais de dez séculos de existência. Não é apenas porque uns tipos de um país com duzentos e poucos anos decidiram dizer que éramos pobres e falidos que o negócio se viabiliza.
Esse povo prima, na boca de muitos, pela estupidez e ignorância crónica dos dados essenciais do mundo actual e passado. Não os critico pois têm pouco tempo de aprendizagem, afinal duzentos anos é pouco para aprender algo. Estão, por assim dizer, no início do primeiro ciclo do ensino básico, mas parece que demonstram capacidades para vir a ser inteligentes quando forem grandes. Quem o diz são uns senhores comunistas, Chineses, que são já donos de uma boa parte da escola, da dívida da escola e das propinas, passadas e futuras, destes meninos.
Não eram os comunistas que estes miúdos detestavam no infantário? Talvez esteja enganado, não insisto.
Ora bem, eu, enquanto cidadão deste canto, não levo a mal o rótulo, pois ao longo de tantos séculos já aprendi os conceitos básicos da reciclagem. Ser lixo é apenas o início de uma metamorfose que a reciclagem metaforiza. Querem portanto estes miúdos dizer que nos estamos a reinventar. Talvez para voltarmos a ser donos de metade do mundo, mas desta vez acho que prefiro ficar com a parte das Américas, são mais ingénuos e portanto mais fáceis de doutrinar.
Embora no actual cenário anteveja essa escolha mais difícil, pois parece que os Chineses já são donos de metade daquilo. Mas estou convencido que será apenas uma questão de diálogo e negociação mais apurada.
Voltando ao que efectivamente interessa, quero acreditar que esses meninos da Mody’s são jovens prodígios da psicanálise e nos diagnosticaram um período de ruptura e renascimento. Mas como são ainda jovens e com pouca experiencia não lhe souberam dar o nome correcto e fugiu-lhes a boca para a parvoíce do lixo. Não lhes levo a mal, afinal os psicólogos são todos um bocado loucos, ou pelo menos gostam de dar a ideia que o são.
Em alturas de ruptura sofremos a valer, mas nada que não se aguente, pois quem tem coragem para fazer uma análise tem com certeza arcaboiço para este sofrimento, já sabe, de antemão, para o que vai. Do sofrimento absurdo imerge sempre uma força ainda mais absurda que nos impele para a frente, com empurrões nas costas e puxões, quando caímos, sem que saibamos de onde vêm esses impactos. Sabemos apenas que estão lá, atrás, em cima, á frente, em todo o lado. Não os vemos mas estão lá e sentimo-los. A força está lá.
Qual a percentagem de mortos por fim de um amor, por perda de alguém, por perda de um emprego, por descobrir uma nova sexualidade, por ser traído e outras situações de ruptura que, para não ser exaustivo, não elenco? Não fiz cálculos, mas quase de certeza que o número tem muitos zeros à esquerda, como são os americanos. Perdão mas não resisti ao trocadilho fácil. Excesso de honestidade a minha.
Embora consciente da sagacidade e verdade que sempre sai da boca de uma criança, eu, neste particular, confio mais nas estatísticas, mesmo que empíricas como as que acima esboço. Não me preocupo com os nomes feios que as crianças me chamam, afinal já sou adulto e estou demasiado concentrado na minha metamorfose. Já agora miúdos, eu quero ser um bocado de vidro partido para ver se me transformo numa garrafa de Bombay. E pronto, por hoje terminamos a lição de reciclagem. Vá… façam os TPC todos.
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