terça-feira, julho 19

UM PEQUENO INCENTIVO

A sociedade é como um deserto onde todos somos sedentos viajantes e, ao mesmo tempo, em teoria, podemos ser também oásis. Por entre dunas de fina areia caminhamos dias a fio, sob um sol abrasador, que nos tolda o pensamento e nos estreita a visão. A água é-nos dada quando partimos e na medida em que fomos amados. O alimento alinha pela mesma bitola.

A viagem não é obrigatória, mas grande maioria dos viajantes são impelidos para a jornada sem que percebam as razões e os objectivos da caminhada. Outros, poucos, fazem a viagem por convicção, na demanda de mais água, mais alimento que lhes possa apaziguar o corpo e serenar a alma, em suma de mais amor.

Tanto uns como os outros padecem da dificuldade de calcorrear areia fina e pouco sólida, exaustam-se no escalar das íngremes e escorregadias dunas, tombam e desequilibram-se nas escarpas. Tudo isto, sob a pressão da força que os impele a caminhar. Embora, para alguns, essa força não passe de uma pressão que a meio do caminho fugiu, já, da compreensão e foi desprovida de razão. Outros à que resistem ao queimar do árido sol e mantêm focada a razão da demanda a que se propuseram.

Com o avançar da jornada a água escasseia e urge encontrar um oásis, urge busca-lo em parte alguma. O torrar do sol provoca alucinações, cria miragem, impele-os em corridas loucas para oásis que não passam de miragem que nunca alcançam porque nos metros finais se lhe esvai a força e se auto-impelem a dar meia volta convencidos de que foram vítimas de alucinação.

Outros, buscam o oásis dentro de si e quando não o encontram acabam encontrando a força do tentar. Perante o mirrar das forças e a convicção de miragem, resistem ao voltar costas e arrastam-se até ao suposto oásis. Muitas vezes esse oásis esfuma-se em miragem, mas sem que tal os esmoreça. Insuflando-os, pelo contrário, de uma energia suplementar para correr até ao próximo oásis, seja ele ou não miragem, e apalpa-lo para averiguar da sua veracidade.

A persistência é recompensadora. Depois de algumas tentativas descobre-se finalmente o oásis, muitas vezes no companheiro de jornada, outras no desconhecido. Uma vez encontrado devemos, sem sofreguidão, mas com entrega total, sorver a água da fonte, alimentarmo-nos do fruto da palmeira, garantir que a fonte esteja sempre limpa, regar a palmeira para que floresça e cuidar do espaço para que ele cuide de nós.

Se, mesmo depois de tamanha entrega realizarmos que, o oásis encontrado, nada mais era que uma miragem um pouco mais real, não esmoreceremos. Reanimados pela entrega aplicada, partiremos, por vezes de coração sangrado e aberto, mas animados pela força da tentativa, pelo ousar perder, em busca de novo oásis. Se o fracasso se repetir não nos arrependeremos do investido e voltaremos a partir em busca de outro e assim consecutivamente até acharmos o nosso verdadeiro oásis. Aquele que nos serenará e nos acompanhará para sempre, alimentando-nos e saciando-nos a sede apenas com a sua existência.

São estes segundos viajantes que eu admiro e encorajo a tentar sempre e a manterem-se fiéis ao seu objectivo, mesmo quando a fria derrota os faz tremer. É a estes que eu quero dizer: não tenhais medo de tentar, não temais o desconhecido porque estais armados da força da convicção e sois crentes apenas no caminhar sem que a meta vos cegue.

Eu, julgo ser um destes segundos e julgo, também, estar a vislumbrar um pequeno oásis, que alcançarei daqui a 2 ou 3 dias. Se é miragem ou não, a seu tempo descobrirei. Mas, prometo, não regatear entrega e dedicação enquanto for real e me quiser albergar.

Sem comentários:

Enviar um comentário