domingo, maio 8

Furioso

Basicamente, segundo o padre da aldeia onde nasci, existem no mundo dois tipos de pessoas: os satisfeitos e os insatisfeitos, ou usando palavras dele : “….os que vivem no mundo dos satisfeitos e os que vivem no mundo dos insatisfeitos…”
Parece que segundo essa classificação eu me enquadro, claramente, no segundo grupo.
Visto da perspectiva dos que classificam as pessoas pela tarimba dos que encaram a metade de liquido do copo como estando meio cheio, eu poder-me-ia considerar um tipo afortunado, pois seria sinónimo que sou ambicioso, que não me acomodo e que sou lutador. Mas porra ando há cerca de um mês a escrever aqui e o resultado são baldes de lágrimas e queixumes. Perante a adversidade fraquejei e só me lamurio, na minha cara as pessoas só vêm tristeza, derrota, um tipo muito em baixo. E tudo isto no meio de imensas ajudas que outros não têm perante as mesmas circunstâncias, que verdade seja dita, não são assim tão graves.
A prova maior do meu fracasso é que, por muito que tente, não consigo escrever nada que não seja sobre mim, o que faz de mim egoísta, e não consigo escrever nada de positivo, nada com piada, nada que valha a pena ler. Eu não leria o que escrevo, e se tivesse de ler, provavelmente acabaria agarrado a uma garrafa de gin para conseguir digerir tanta lamechice e evitar uma congestão depressiva.
Por mais que olhe para este monitor nada de interessante me ocorre para escrever, nada com humor e pior que tudo, nada com substancia.
Estou furioso com a insuportabilidade do meu comportamento ao longo deste mês, estou furioso com a minha falta de garra, estou furioso com a minha vitimização, que aqui continua, estou furioso com a gestão que fiz desta adversidade, estou furioso porque saí claramente por baixo, estou furioso com os medos que se apoderaram de mim, estou furioso pelas palas que entretanto coloquei nos olhos e que nada mais me deixam ver do que o lado negativo.
Em tempos idos conheci uma pessoa, frágil e sofrida, a quem a vida não sorria há muito tempo, a quem aconteceram coisas realmente muito graves. Pois essa frágil pessoa a tudo conseguia dar resposta do fundo do sofá, onde se enroscava e esperava que a borrasca passasse.
Essa pessoa gostava de mim. Mais do que alguma vez alguém havia gostado. Pois, estou furioso por ter sido covarde e não a ter conservado próxima de mim. Que a bonança a proteja agora e por muito tempo. Quanto a mim vou-me enroscar no sofá e tentar ser mais homem.
Desta vez vou assinar e sair do anonimato.

Calimero

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