sábado, maio 7

Empregada que faz sopa

Ser actor é difícil, percebo agora o quanto talento é necessário para dar vida a um personagem. Acordar com um humor de cão e ter de dar vida à mais alegre, feliz e despreocupada das raparigas. Ou, mais difícil ainda, ter que interpretar um vil homem, daqueles que estão sempre de mal com a vida e que infernizam a vida de todos os que o rodeiam, num daqueles dias de primavera em que dormimos muito bem e mal saímos de casa ganhamos logo um sorriso espontâneo de alguém que passa.

Faço este merecido elogio aos bons actores e actrizes porque o merecem, claro está, mas também porque os invejo. E não me venham dizer que ter inveja é mau porque aposto que quase todos já algum dia sentiram o mesmo, talvez não o identificando ou analisando como eu aqui o faço, pois cada um é uno, e como tal sente e vive o mesmo sentimento diferentemente.
Todos temos alturas em que a nossa vida é um céu denso e carregado de escuras nuvens que assinalam borrasca a avizinhar-se ou tempestade que sobre nós se abateu à uns instantes, e nós, qual avião, de uma qualquer carreira regular, temos de manter a mesma eficiência o mesmo serviço, a mesma segurança de sempre.
É nesses dias que dava jeito ter algum talento de actor, porque os passageiros precisam de se sentir seguros na viagem, nós precisamos de todos os nossos instrumentos de navegação tão afinados como sempre e o esforço de descolagem não é menor, nem os ventos nos ajudarão a planar com mais facilidade se os motores não estiverem na máxima potencia.
Se num desses dias não estivermos no nosso melhor e não tivermos talento de actor, rapidamente, ao nosso avião será dada ordem de ir para o estaleiro e outro tomará o seu lugar pois os passageiros têm de ser continuamente transportados.
Claro que todos temos de ir ao estaleiro de quando em vez, mas se o período de estadia se alongar, os outros aviões continuarão a voar e, a nós, apenas resta ir para casa e encontrar a nossa empregada a dias a cozinhar-nos uma sopa porque precisamos de ir comendo qualquer coisa…
Ser humilde não custa, ou pelo menos não deveria custar, mas é desta pequena história da sopa que nos surge a imensa vontade de ter tido aulas de representação.

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