terça-feira, junho 14

Karaté Kid

Ídolo de muitos nados nos 70’s e 80´s, o miúdo com ar franzino e olhar reguila continua ainda hoje a fazer parte do meu imaginário. Trago para aqui a personagem do karaté kid protagonizada por Ralph Macchio para dar continuidade à urgência de mudança aludida no último texto.

Para os mais esquecidos, o filme conta a história de um jovem lutador que deseja aprender Karate Kid, e para isso convence um experiente mestre a dar-lhe aulas, que acabam por transformar-se em lições de vida.

A quem não doeu a alma ao ver o jovem aprendiz, sedento de lições de luta a sério, a iniciar o seu treino esfregando de forma circular o chão da velha madeira do alpendre do mestre? A mim doeu.

De facto, ver alguém, esfregar o chão em movimentos circulares durante dias a fio mete dó a qualquer um. Com o desenrolar do filme percebemos que a tarefa tinha como objectivo duas importantes aprendizagens: os movimentos básicos de defesa em karaté e promover a confiança cega do discípulo no mestre.

Mesmo não percebendo o objectivo, mesmo sendo por vezes acirrado, mesmo lutando contra a enorme frustração de não estar a aprender a lutar, quando essa é a coisa que mais desejava, o discípulo devia dar provas da sua confiança e determinação.

A ligação entre esta história da nossa adolescência e o desejo de mudança não é fácil, muito menos é linear e provavelmente parecerá desenxabida aos olhos de que possa ler este texto.

O filme fala de quase tudo, menos de luta, através da luta.
Brilhante frase para quem quer simplificar e fazer uma ligação difícil. Nem sempre a nossa camioneta tem tara para a quantidade de areia que lhe queremos carregar, mas posso sempre forçar arriscando uma multa, afinal, sou português.

Voltando ao cerne, o enredo é uma história de, incondicional, aprendizagem e dedicação mútua. Aquele franzino jovem a quem a vida não sorria tinha uma vontade, um objectivo. Aquele mestre, cuja vida, já tinha deixado as marcas do cansaço e da acomodação, encontrou no treino do jovem uma nova vitalidade. Havia alguém que queria apreender e alguém que necessitava de ensinar. Uma relação win win em economicus.

É certo que nada foi dado de mão beijada ao aprendiz. É certo que lhe foram apresentados duros testes. Escovar o chão quando a vontade é treinar não é pêra doce para a moral. Mas também é certo que nos momentos de fraqueza o mestre, arrepiou caminho, e mostrou o rumo ao jovem, contrariando assim a velha crença de que temos de ser nós próprios a descobrir o nosso caminho ou aquela que diz : “… o caminho faz-se caminhando…”. Pois está-se mesmo a ver que, se no combate final o mestre não tivesse feito aquelas milagrosas massagens na perna do aprendiz, a vontade férrea de ganhar seria suficiente para que o aprendiz vencesse o combate final!

Batota combate-se com batota!!!! Ui… que esta é polémica.

A equipa do outro treinador aplicou uns golpes baixos no penúltimo combate, tal como a vida nos aplica, frequentemente, a cada um de nós.

A vida é batoteira, afirmo-o sem pejo.

Momentos em que tudo parece estar perdido e as nossas forças sumiram, todos temos, mestres, quase todos temos, afinal ser português é também dar um “bitaite” sobre o problema do outro.

Mas, e mestres capazes de fazerem batota por nós, capazes de reconhecer quando o nosso esforço é já demasiado, capazes de correr riscos connosco, assumindo um caminho para nós, ou seja, o contrário do fácil “bitaite”, quem os tem?
Ou pensam vocês que o mestre tinha magia nas mãos para curar a perna partida do lutador. Nada disso meus caros, a cena não passou de uma artimanha para convencer o aprendiz a ir á luta de novo, esquecendo as dores. Quem teve a verdadeira coragem, o verdadeiro mérito naquele dramático final foi o mestre e não o aprendiz.

Foi o mestre que assumiu risco ao incentivar com massagens “milagrosas” o aprendiz a fazer a luta final. E se corresse mal? E em vez do Karaté Kid estivéssemos a falar do Milion Dollar Baby, seria o mestre capaz de assumir solidariamente?
A esta pergunta não tenho resposta mas sei que tal, como em Milion Dollar Babby o aprendiz nada mais demonstraria que gratidão pela mudança operada e pela felicidade que dai resultou. Nem sempre temos happy ends mas temos sempre a escolha de arriscar tudo. E essa escolha é nossa, só nossa.

A ligação à mudança perdeu-se algures no meio do texto, mas para a retomar, de forma resumida, diria apenas que há momentos em que a nossa vida se decide entre mestres de Karaté Kid e mestres de Milion Dollar Baby.

Se tivermos a sorte de os ter, saímos de certeza vencedores, qualquer que seja o desfecho, se não os tivermos, sobreviremos com toda a certeza.

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