sábado, julho 30

MUNDO AO CONTRÁRIO

Todos já ouvimos velhas história dos avós que se casavam por procuração, na maior parte das vezes mesmo sem se conhecerem. Entretanto, os tempos mudaram e com eles as mentalidades. Essas histórias parecem-nos agora bizarras quando contadas á luz da internet, dos i-phones, 3G, 4G, msn, facebook e toda a parafernália de objectos e serviços que foram criados para nos facilitar a vida. Somos, portanto, agora modernos e civilizados. Os de antigamente eram toscos e faziam as coisas de maneiras incompreensíveis.

Onde já se viu casar por procuração, namorar por carta, não conhecer fisicamente a pessoa que vamos desposar ou que simplesmente estamos a cortejar? Tudo tão antiquado! Agora temos o msn, o facebook, os e-mails, os sms e fazemos exactamente o mesmo que os antigos, só que, não por necessidade, mas por comodismo e medo.

Quem não flirtou já na net? Quantos não conhecem pessoas nos chats ou nos sites de encontros? Quem não colocou algumas mentirinhas no perfil? Quem não sente uma autoconfiança desmedida quando escondido atrás do monitor?

Não sou critico de comportamentos, nem faz meu feitio apontar o dedo. Procuro apenas reflectir sobre pequenas coisas, buscando entende-las e, ao mesmo tempo, explica-las a quem me ler. Umas vezes sou bem sucedido outras menos bem. Mas, tento! Estico o meu fraco talento para verter reflexões no papel.

Não querendo criticar custa-me perceber porque nos tornamos tão conchas, tão anti-sociais e predadores de companhia ao mesmo tempo. Hoje é entendido como estranho sorrir para alguém no metro, na rua, dizer um olá, perguntar o nome e trocar dois dedos de conversa. Se alguém, cruzando-nos no passeio, nos pede uma simples indicação quase que fugimos, quando não fugimos mesmo. No entanto, se num chat, nos perguntarem, por exemplo, quais nossas preferências sexuais respondemos naturalmente e somos capazes de retorquir com qualquer outra questão igualmente incisiva.

Nada nos intimida atrás do ecrã. Não olhamos para o solitário comensal sentado na mesa ao nosso lado, mesmo estando também nós sozinhos. Sorrir-lhe ou trocar dois dedos de conversa está fora de questão. No entanto, colocamos no facebook toda a nossa vida, damos um peido e postamos no facebook. Existem hoje muitas pessoas que literalmente fazem isto. Não é exagero.

Como afirmei acima não é meu objectivo criticar ou apontar dedos, mas questiono-me, seriamente, se não teremos o mundo ao contrário.

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