As vezes temos simplesmente de nos deixar ir na onda. Deixar que nos enrole, que nos derrube e nos engula. Se não a tentarmos contrariar ela devolver-nos-á vivos. Feridos, doridos mas vivos. Se a tentarmos contrariar corremos serio risco de ficar sugados para todo o sempre.
Claro que quando somos enrolados ou levados na onda o primeiro instinto é resistir mas o mais inteligente é aceitar as feridas e os ossos doridos e deixarmo-nos ir ao sabor dos caprichos do mar. É quase certo que descobriremos algo de verdade. Talvez seja este o alicerce que suporta a célebre expressão – “ a verdade dói”. Eu completo com “…. A verdade dói mas não mata…”
Todos temos um pouco de surfistas porque um surfista não passa de um equilibrista que tentar cavalgar as ondas, retirando prazer e mantendo-se em pé. Alguns de nós somos surfistas por prazer e por isso arriscamos manobras, cavalgamos túneis e aceitamos o galo na cabeça de uma pancada da prancha com um sorriso e um olhar de desafio. Outros surfam por obrigação, por medo de serem engolidos, por cobardia de enfrentar as profundezas ou simplesmente porque nunca o souberam fazer de outra forma. Se o hábito faz o monge a obrigação faz a infelicidade.
Honestamente não conheço monges felizes e tão pouco obrigados alegres. Conheço monges resignados, focados e quase sempre fugidos e conheço obrigados moribundos. Nem sequer aceito discutir este meu ponto de vista, assumo-o ortodoxamente. Não por casmurrice ou por vista curtam, mas apenas porque acredito que serei feliz a levar pancadas de prancha na cabeça.
Duvido que algum dia consiga cavalgar uma onda sem cair. Mas não duvido que me hei-de sempre deixar levar por ela e acredito que sempre me atrairá, como um íman, para uma nova tentativa de cavalgar. Acredito que serei bem sucedido se conseguir nunca resistir ao desafio. Haja betadine, linha para dar pontos, gesso e talas que eu não me importo de usar e abusar deles. Se não for pedir muito dava-me jeito alguém que os comprasse e aplicasse, tudo o resto eu providencio.
Se um dia conseguir cavalgar a onda sem cair serei um super feliz afortunado. Se nunca o conseguir e nunca desistir ostentarei felicidade cada vez que mostrar as minhas cicatrizes.
Sem comentários:
Enviar um comentário