Tenho uma enorme prateleira na minha sala. Povoam-na alguns livros e alguma musica, mas ainda é um condomínio relativamente recente e com poucos moradores. Demasiadas espaços vazios aguardam por dono. Outros, já o tiveram mas agora estão vazios, os habitantes mudaram-se, seguindo uma qualquer quimera ou simplesmente a reboque dos caprichos do dono.
Os livros que moram na minha prateleira estão quietos e parados há algum tempo. Depois de lidos não lhes volto a mexer. Outros aguardam ainda ser desbravados e não têm qualquer indicação de quando serão descobertos, utilizados, devorados ou simplesmente saboreados. Considero que sou mais ingrato para estes segundos pois, apesar de os ter aqui à minha disposição muitas vezes vou directo a uma livraria e elejo a minha companhia dos próximos tempos não respeitando aqueles que, fielmente, me aguardam, por vezes, há anos. Racionalmente não consigo explicar esta minha opção. Talvez o objecto da preferência seja, tão somente, uma capa mais sedutora, ou um comentário favorável ouvido ou lido. É como se os virgens residentes se fossem catalogando, com o passar do tempo, com o selo de rejeitados.
No entanto se algum dia alguém me pede um emprestado fico sempre com aquela sensação de arrelia no estômago, que traduz ciúme por outro os descobrir antes de mim. Parece que naquele momento a capa do livro pedido ganhou um brilho intenso, que a torna extremamente sedutora. Mas nessa altura já nada há a fazer, pois as regras da boa educação impõem que não se recuse um pedido de empréstimo de um livro. A situação agrava-se porque a empírica estatística prova que boa parte dos livros emprestados não retornem ao dono. Esquecimentos, caminhos desencontrados, o lufa lufa do dia a dia ou tão somente o acanhamento de lembrar a alguém que possui algo nosso e que o deve devolver, sustentam esta empírica estatística.
A forma como tratamos os nossos bens materiais revela muitas vezes a maneira como lidamos com as pessoas que nos rodeiam. Quem não colocou já outro na prateleira durante tempos infinitos e quem não foi já colocado na prateleira? Quase todos nós já passamos por isso e já o fizemos também. Não me queria perder em julgamentos mas não posso deixar de me questionar se será justo ou injusto este comportamento. Se entender-mos o outro como ser pensante e formos claros nos nossos intentos a situação reveste-se de justiça, se formos apenas realistas percebemos a irracionalidade dos afectos e teremos que aceitar o rótulo da injustiça.
Pessoalmente opto pela terceira via para abordar este comportamento. A terceira via é algo lato que parece só o Sr. Tony Blair e o seu mentor Anthony Giddens compreenderem. Se bem que duvido que o primeiro tenha captado, por completo, a essência da coisa. Ora eu não sou, certamente, mais inteligente que o senhor Blair e portanto vou-me limitar a imita-lo e a usar a terceira via para expor as minhas ideias.
Eu penso que o comportamento da prateleira não passa de uma auto-protecção, de uma simples carapaça. Para os que aguardam na prateleira é reconfortante pensar que um dia poderão ser escolhidos. É também cómodo, pois convencem-se que aguardar o uso significa abdicar de procurar novo dono, não tendo de suportar as venturas e desventuras que tal demanda sempre acarreta. – Migalhas também são pão! Dirão eles.
Para os que colocam na prateleira é uma protecção contra o estar sozinho. Uma espécie de apólice de seguro que garante que nunca teremos de pagar o preço da solidão. Tal como quando espatifamos um carro o seguro não nos dá outro novo mas sim o valor actual da viatura acidentada, também neste seguro teremos sempre a garantia de uma não perda total.
A minha grande duvida é se não saberão os primeiros que o pão se come às fatias e os segundos ignoram que menos que tudo é pouco mais que nada.
Mas passar da teoria á pratica é sempre tão difícil!!!!
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