domingo, outubro 23

MEDO, DANÇA E O GRITO DE MUNCH

Todos admiram pessoas temerárias, que não têm medo de nada, super corajosas que enfrentam o medo olhos nos olhos, qual Lucky Luke, e comem medo ao pequeno-almoço. Nada temo!!! Dizem, orgulhosamente, de peito feito e à boca cheia.

Eu aceito e não contraponho. Cada um é livre de se auto-definir perante a sociedade antes que a sociedade o defina a si. Uma jogada de antecipação, que embora beneficie do carácter sagaz associado à expressão, nem sempre é inteligente, dado que, por vezes, condiciona-nos e afunila de sobremaneira as nossas possibilidades, amesquinhando-nos a personalidade.

Eu, sem querer ser do contra, atrevo-me a afirmar que o medo nos mantém vivos. Nada disto é original, nem acrescenta muito ao senso comum. Ter coragem é nada mais que assumir que temos medo e compreender que é esse sentimento que nos faz avançar mesmo que por vezes pareça que estamos a dar passos atrás ou que estamos paralisados por ele.

O medo, em última analise, define o nosso caminho. Alguns atribuem esse papel ao destino mas eu não concordo. Indo mais além, afirmo, que o medo é pedra basilar na construção diária de nos próprios. Bem-aventurados os que têm medo. Não tenhas receio de apregoar os teus medos tal como não deves ter vergonha de apregoar o teu amor. Quando apregoas os teus medos estás a ter coragem de touro, estás a assumir quem tu és genuinamente, estas a aceitar e a compreender as tuas fraquezas, que, na maioria das vezes, o são apenas aos olhos da sociedade.

Encara o medo como teu parceiro de dança, baila com ele, mas chama a ti a condução da dança. Se assim fizeres bailarás mais levemente, mais harmoniosamente, farás piruetas com menor esforço e, sobretudo, empregaras o teu suor no que realmente é essencial. Ou seja; lutar pelo belo, disputar o genuíno e o natural. O Grito de Munch retrata o medo e o desespero, mas o seu autor transformou-o em algo belo, afirmando-o como uma das obras mais importantes do movimento expressionista e conferindo-lhe um estatuto de ícone cultural. Emprega também tu a formula de Munch e transforma o medo em algo belo e valioso.

Nunca te esqueças também de ter medo de quem não tem medo. Se assim fizeres sobreviverás, começaras a viver e um dia terás tanta consciência de ti que viverás em plenitude.

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