terça-feira, outubro 25

DIZ O ZÉ QUE….


Amar não é só gostar muito. É também a arte de criar necessidade no outro. É, acima de tudo, saber receber. Essencialmente é saber ser apreciado. Valorizar cada acto de amor como se de uma raríssima pedra preciosa se tratasse, mesmo que esses actos de amor nos sejam ofertados em quantidades tão infinitas como o ar que respiramos.

Mas quem pensa na capital importância do ar que respiramos até ficar engasgado ou fechado num cubículo onde o ar é rarefeito? Ninguém!!! A cavalo dado não se olha ao dente diz, com muita propriedade, o Zé Povinho. Para que havemos de valorizar o ar se nos é dado? Burrice e estupidez natural. Desvalorizamos um bem a que reconhecemos um carácter vital só porque nos é dado.

Fazemos o mesmo com o amor. Se nos presenteiam com muito deixa de ser vital e passa a supérfluo. Estupidamente, uma vez mais, começamos a deitar o excesso no lixo. Dai a celebre pergunta “Diz-me lá onde é o teu caixote do lixo?” Se conseguisse traduzir um sorriso em palavras fazia-o agora pois a celebre pergunta está aqui mais fora de contexto que um peixe fora de água.

É frequente olhar-mos mas não vermos um mendigo procurar alimento e outras coisas, ainda de bom uso, nos caixotes do lixo. Também todos já ouvimos histórias em que os nossos imigrantes, após saírem do seu mercedolas, nos relatam como foram encontrar uma magnífica televisão ou uma cama na “pubelle”. Ou seja, o que uns rejeitam, outros, mesmo pouco precisados, agradecem.

Pois no amor também assim é. Não são apenas os necessitados que o buscam no lixo criado pelo supérfluo de actos. Todos nós, ou quase todos, que acabamos por andar sempre a reciclar o que outros deitaram fora. Não há mal em reciclar, não há mal em deitar fora um modelo para procurar outro mais ajustado ás nossas necessidades, nem, tão pouco, há mal em ambicionar que “…menos que tudo é pouco mais do que nada….” Há mal em desvalorizarmos só porque temos em abundância, há mal em não acautelar a poda e o fertilizante só porque a actual colheita é farta, há mal em não regar por preguiça, egoísmo e acomodação. Há mal, quando sentimos na pele o verdadeiro significado de mais esta tirada do Zé Povinho: “…Fia-te na virgem e não corras…”

Nesta altura é quase sempre já tarde de mais para reanimar o sentimento moribundo. A árvore que outrora nos presenteava com abastança murchou, definhou lentamente e acabou por secar. Só com muita sorte conseguiremos fomentar o rebento que das raízes moribundas teima em renascer, consubstanciando este renascimento numa segunda oportunidade. Para dar segundas oportunidades é preciso um carácter singular e forte, para dar uma nega basta ser casmurro. Ora como vivemos num mundo de facilitismos….

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