O que todos precisamos é um passe social para a terra do nunca. Não que seja só destinado a pessoas com fracos recursos mas por ser um bem de tão primeira necessidade deve ser a preço social. Para que ricos e pobres o possam obter sem discriminações nem embaraços. Este passe não é comprável com dinheiro nem tão pouco com piedade. É apenas algo a que todos temos direito por nascimento mas que muitos de nós se envergonham de ostentar, outros esqueceram, apenas, a sua existência. É um passe com edição ilimitada, inesgotável como o ar e também tão susceptível de ser contaminado.
Numa carteira atulhada de cartões de crédito, débito, finanças, B.I. e toda a infindável parafernália de outros pedaços de plástico que todos os dias nos impingem, este passe social deve estar guardado na linha da frente de forma a que lhe tenhamos acesso rápido e fácil. Deve também ser o primeiro cartão que os outros vêm quando abrimos a carteira á sua frente. A sua importância é de longe superior à de qualquer cartão de crédito gold ou vip. Este passe social define-nos mais que o B.I. na medida em que transmite a nossa força para assumir a aparente fragilidade de querer, de quando em vez, voltar a ser pequenino e fugir para a terra do Peter Pan. Transmite também a inteligência de quem compreende que não se pode ser adulto e amadurecer matando a criança que há em nós. Pois ela é o motor que impulsiona todo o nosso percurso de adultos. É também o combustível dos sonhos e sendo que o sonho comanda a vida, facilmente inferimos que é a criança dentro de cada um que comanda a nossa vida e faz avançar o mundo.
Mesmo sendo este passe social grátis e ilimitado há ainda tantos que não o têm. Uns porque o perderam e não pediram, em pensamento, a sua substituição, outros porque têm vergonha de andar com ele, outros guardam-no no fundo da carteira de modo que nunca o usam, outros ainda preferem ter cartões exclusivos e “vipalhados” e ainda aqueles que quando o usam sentem-se frágeis e impotentes e, pior que tudo, são recriminados pelos seus pares, muitas vezes por aqueles que lhe deveriam ser incondicionais. Não tenho dados concretos mas estimo empiricamente que nem 10% dos adultos usa este passe social.
Gostava muito de estar enganado nesta estimativa, pois ela preocupa-me de sobremaneira. Pois se tão poucos o usam, afinal quem comanda as vidas dos restantes e quem faz o mundo avançar?
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