Aplico a velha máxima de Francis Bacon "...Não há comparação entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar..."
terça-feira, novembro 1
ESTOU-ME “POSITIVAMENTE A CAGAR”
Já houve tempo em que eu achava que a crise da divida se resolvia com a simples dispensa da metade dos funcionários públicos. Hoje, mais lúcido, percebo que a solução é muito mais simples. Basta que as pessoas passem a julgarem-nos e a entenderam-nos por aquilo que realmente somos e não por aquilo que aparentamos ser.
Estamos em crise porque passamos demasiados anos a tentar parecer o que não somos. Focados em agradar aos outros e obcecados por dar uma imagem de nós que seja bela, socialmente aceitável e invejável. Ora, isto mais não é do que futilidade, falsidade e uma falácia do tamanho do mundo. O que somos realmente só se percebe quando nos olham de perto, de forma aturada, crítica e interessada. E mesmo assim não fugimos ao risco de, quando olhados de perto, todos somos esquisitos.
Estou-me “positivamente a cagar” para as primeiras impressões. Diria mais: “cago de alto” para isso e ainda de mais alto para quem faz desse método a sua principal ferramenta de interacção social. Fúteis e biblots tem o seu espaço próprio e natural; as revistas cor-de-rosa, as novelas e aquilo que na minha terra se chama de “quadrilhice”. A sociedade agradecia, eu pelo menos ficaria eternamente grato, que essas pessoas se confinassem ao seu espaço natural e não contaminassem o resto das maças, ainda sãs, do cesto. Outra boa ideia seria coloca-las em quarentena até que adquirissem algum conteúdo.
Digo que me estou “positivamente a cagar” do alto da torre dos clérigos para a reles teoria de que as primeiras impressões é que contam porque exijo, como requisito mínimo, que se alguém quiser realmente ser importante para mim se esforce para me olhar de perto, aturadamente, e perceba um pouco do meu “eu” escondido pela carapaça. Não é uma grande exigência se comparada com exigir que a pessoa me apareça sempre bem vestida à Chanel e com acessórios a fazer “pandam” ( para os fúteis esta expressão não se usa na escrita, mas pode ser usada na oralidade e deriva da expressão francesa “faire pendant”).
Um pouco de conteúdo não faz alergia pois não? Talvez alguma comichão mas alergia não. Mas voltando a trás e à minha simples exigência, acrescento que os “biblots” e os cães de loiça já estão “demodés” e, sobretudo, rebaixam o espírito. Por outro lado os cães de loiça fizeram ganhar uns bons cobres ao Rouxinol Faduncho. Nestes tempos de crise talvez fosse boa ideia aproveitarem a dica para também ganharem algum com vocês mesmos.
Eu exijo que me olhem de perto e não sou pretensioso por isso. Pois faço o mesmo com os outros. Não me deixo iludir com bons carros, com fatos Chanel, com posturas socialmente correctas ou sorrisos amarelos. Procuro sempre ir ao cerne, para perceber a pessoa como ela é na realidade. Coloco-me por varias vezes no lugar dessa pessoa e observo muito antes de opinar, mesmo que por vezes opine de forma devastadora. Assim sendo não me parece pedir muito que façam o mesmo comigo. Parece-me justo. Certo?
É, também, justo que discorde desta crise e dos euros que querem rapinar. Pois o motivo da crise não é de excesso de divida. Esse é apenas o sintoma, a causa é tão só a futilidade e as pessoas querem fazer parecer algo que efectivamente não são. Qualquer bom médico ou terapeuta dirá que a cura da enfermidade não se faz atacando os sintomas, isso alivia-os apenas, mas sim percebendo e corrigindo as causas.
Assim sendo deixem-se de me subtrair os meus magros euros e, simplesmente, decretem contra o fingimento e metam esses fúteis de quarentena. Sejamos, simplesmente, genuínos, tenhamos confiança no nosso taco e deixará de haver crise.
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