sábado, outubro 29

A NOSSA VIDA DAVA UM LIVRO


A nossa vida é feita de paralelismos, a forma como encaramos cada evento pode e deve ser sempre analisada à luz de uma metáfora que nos permita simplificar as reacções e através dessa simplificação compreender as nossas motivações. Resumindo e simplificando, devemos sempre ter um sentido critico sobre as nossas acções e pensar sobre o que nos atirou para elas. Devemos pensar sobre nós de forma constante e sistemática, aceitando a dúvida metódica como amiga e companheira de jornada, mas, sem nunca esquecer o velho dito popular : “amigo não empata amigo!” Resumindo, uma vez mais, a dúvida metódica será apenas “amiga” se não nos paralisar. Afinal os amigos são os que nos apoiam, fazem reflectir e dão pequenos empurrões.

Quando iniciamos um livro deparamo-nos quase sempre com a apresentação das personagens, o enquadramento da história e o levantar o véu sobre o enredo. São normalmente paginas densas, carregadas de descrições exaustivas e exigentes em termos de leitura. Se quisermos assim classificar, podemos definir esta primeira metade do livro como a parte chata. A parte em que temos de empurrar a leitura, a parte onde o suor se sobrepõe ao prazer e à inspiração. A partir de metade do livro a história ganha dinâmica, os diálogos tomam conta das páginas, a acção impera e a nossa cumplicidade e conhecimento dos personagens atinge o expoente. É também a parte onde antevemos as surpresas, as reviravoltas e nos permitimos a vaticínios sobre o enredo.

A simples expectativa de surpresas gera em nós interesse acrescido, a fluidez dos diálogos propícia a acção, exceptuando os filmes / livros do Stalone e do Swazeneiger. Empolgando-nos e mantendo-nos agarrados ao livro. É a altura em que o livro puxa por nós e nos conduz. É quando prazer gera prazer e tudo parece andar sobre rodas. Em resumo estamos cativados, entusiasmados e empolgados.

A expressão “ a minha vida dava um livro” ganha, á luz do acima dito, mais sentido do que nunca. Quando nos propomos a empreender algo deparamo-nos com a fase de pesquisa, de implementação, em que nos são exigidos esforços hercúleos para avançar um só milímetro. As barreiras e as dificuldades reinam, o suor jorra por todos os poros e a tenacidade e a resiliência são os nossos melhores aliados. Chega, por fim, aquele momento em que atingimos o primeiro objectivo, fechamos o primeiro contrato e ganhamos o fôlego das experiencias positivas que se transformará em íman para outras experiencias, cada vez mais positivas. Nesta fase acordar é um prazer, as noites são uma seca e ansiamos pelo iniciar do novo dia. Estamos já na segunda metade do livro, basta, agora, que continuemos a ler com o mesmo empenho e que saibamos saborear o fruto advindo do já construído. Invariavelmente, este livro chegará ao fim, tal como chegam os ciclos dos projectos. Dando lugar a novas áreas de aposta, fruto da inovação e do querer mais e melhor. Sentiremos nesta altura um misto de emoções contraditórias. Por um lado queremos rapidamente chegar ao fim do livro, por outro estamos já com saudades da história e a cada página que voltamos o prazer empolgado da leitura mistura-se com um sentimento de apego saudosista. Nunca deveremos deixar que a saudade leve a melhor sobre o prazer, sob pena de sermos tomados pelo marasmo. Teremos de iniciar outro livro, submetendo-nos ao mesmo ritual do: primeiro empurra para depois seres puxado.

Também as relações alinham pela bitola de “a minha relação dava um livro”. No inicio é descoberta, conhecimento, compreensão, ajustamento. Neste particular o esforço é atenuado pela paixão, pelo saltar nenúfares, mas não deixa de ser esforço. Talvez o prazer venha mais cedo, mas mesmo o sexo não encaixa nas primeiras vezes e irá invariavelmente melhorando á medida que a relação avança. A paixão vai dando lugar à cumplicidade e esta por sua vez dará lugar ao amor e ao sexo cúmplice e intuitivo.

Estaremos agora na segunda metade do livro, onde o desfrutar deve imperar, onde o prazer atinge cumes e o amor nos impele a avançar de sorriso nos lábios. Claro que o livro caminhará para o fim e será necessário iniciar outro. Sendo esse outro metaforizado na reinvenção continua da relação, no avanço para novas etapas e mesmo no afrontamento de algumas tormentas que farão o suor parecer mil vezes maior que o prazer, mas onde o rijo casco do nosso navio, o mastro bem estribado, a cumplicidade e coordenação no manejar das velas serão nossos aliados para ultrapassar a borrasca. Sairemos dela com alguns danos mas com a confiança na nossa dupla cimentada e reforçada.

Quando falham as relações? Falham quando confundimos a paixão inicial com o já estar no meio do livro. Falham quando não estamos dispostos a entrar no livro sem ser a meio. Falham quando deixamos que o saudosismo, que o aproximar do final do livro sempre nos traz, se sobreponha à vontade de iniciar um novo livro e nos entregue à acomodação votando-nos ao marasmo. Falham quando não sabemos cavalgar uma montanha russa a pedais, ou simplesmente nós recusamos a embarcar nela pelo esforço que as subidas nos exigem e pela lentidão com que nos presenteiam.

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