Aplico a velha máxima de Francis Bacon "...Não há comparação entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar..."
domingo, novembro 13
RESTA-NOS TENTAR IMITAR O CINDERELA MAN, OS SEUS IDEIAS E MOTIVOS.
O pugilismo é um desporto violento. Muitos idolatram-no, outros acham aberrante e desagradável ver um ser humano a bater noutro seu igual. Eu não vou fazer juízos de valor, limitar-me-ei a encontrar paralelismos entre o pugilismo e o dia-a-dia.
As diferenças entre um combate de pugilismo e o dia-a-dia são ínfimas quando observadas por um olhar lato. Efectivamente, o dia-a-dia é feito de pequenos ataques, de capacidade de encaixar golpes, de sofrimento, de capacidade de bailar, de nos esquivarmos, de estar sempre em movimento, de jogo de cintura, de saber aparar o golpe para a seguir ripostar. Sendo o ripostar não o bater no outro, mas sim o saber encaixar os golpes da vida, saber ir ao tapete e ripostar. Não batendo na vida, mas apenas reerguendo-nos para voltar a dançar, a gingar. Este é para mim um ripostar mais forte do que dar um soco bem assente.
Os bons pugilistas vão sempre a jogo. Mesmo após terem levado a maior sova, após aquele “ko” mortífero. No combate seguinte olhamos para eles e estão lá como sempre estiveram. De peito aberto, dispostos a levar pancada, a sofrer, a gingar como sempre, a atacar com lealdade e sobretudo a dar o melhor espectáculo e a vive-lo intensamente. Estes são os campeões.
Depois temos aqueles que após terem sofrido um “ko” vão para o combate seguinte cheios de manha e, essencialmente, preocupados em defender. Quando alguém vai com uma postura meramente defensiva, por um lado, dá mau espectáculo, o público não gosta, por outro lado acaba por não entusiasmar ninguém nem a sí próprio. É possível ganhar alguns combates com uma postura meramente defensiva. Mas com o passar do tempo as técnicas de defesa vão sendo percebidas pelos adversários e acabará por vir o dia em que irá ao tapete.
Na vida também acontece o mesmo. Todos nós levamos de vez em quando um “ko”, uns mais frequentemente que outros, mas todos vamos ao tapete um dia. Depois de estar no chão temos duas formas de reagir ao combate seguinte. Ou nos tornamos defensivos e matreiros ou vamos ao combate com a mesma vivacidade, com a mesma disponibilidade para dar espectáculo, para gingar num bailado alegre, suave e ritmado. Suaremos alegria, vontade e determinação e nunca seremos toldados pelo véu do medo de voltar a ir ao tapete. Não sou lírico ao ponto de afirmar que se vá ao combate seguinte com a mesma ingenuidade da primeira vez, mas acredito piamente que temos de ir sem excesso de protecção, senão nunca compreenderemos que menos que tudo é pouco mais do que nada, e, mesmo, mantendo-nos em pé, cairemos, sem sentir a queda, no abismo do conformismo. Atacar é a nossa génese, enfrentar o adversário olhos nos olhos é o nosso hábito, não deixemos por preço algum que este “é” passe a “era”.
Existem cada vez menos boxers não defensivos e não resignados. Até o Mike Tisson acabou por se tornar um atleta defensivo e em vez de terminar a sua carreira no auge, terminou-a quando a resignação e a manha o consumiram a tal ponto de ter perdido a integridade que lhe permitia manter-se em pé e gingar. Não tomou as rédeas, deixou-se apenas levar. Terminar uma carreira no auge não significa termina-la com uma grande vitória mas sim termina-la com a mesma atitude, postura e vivacidade com que a iniciamos. Temos de saber sair com a mesma garra que levou as pessoas a acreditar em nós, com a mesma disponibilidade para sofrer, para dar espectáculo, para dar luta. Isso sim é sair no auge, mesmo que saíamos após quatro ou cinco “ko” com inúmeros ossos partidos que deformarão o corpo, moldando-o com o cinzel do sofrimento. Mas a atitude não foi tocada, nenhum cinzel consegui a conseguiu moldar. É esta capacidade de manter a atitude virgem e pura que distingue os grandes dos suficientes. Mesmo que estes últimos ganhem mais.
Infelizmente cada vez mais encontro atitudes moldadas e quebrantadas, mais adeptos da “defesa ser o melhor caminho para vencer”. Então e a surpresa? E a emoção? E os fundamentais? Matamo-los em nós? Matamos a surpresa e desejamos ao mesmo tempo que ela esteja presente. É tipo acreditar em fantasmas. Porque matamos em nós a capacidade de surpreender mas estamos sempre á espera de ser surpreendidos. Matamos a surpresa mas esperamos que ela nos apareça. Um morto que volta a aparecer mais não é que um fantasma. Um daqueles fantasmas que nos invadem a consciência, tornando-a de tal forma pesada que parece que transportamos o mundo às costas.
Ora dado que quase toda a gente matou já em si a capacidade de surpreender e essa mesma gente anseia por ser surpreendida, ficamos perante um problema de impossível resolução matemática. Resta-nos aceitar os fantasmas como críveis e deixarmo-nos invadir por eles. É bizarro e aberrante, eu sei! Mas não me ocorre nenhuma solução mais verosímil. A não ser jogar limpo e atirar as armaduras para longe dando o peito á bala, surpreender o outro, dar o primeiro passo e seja o que Deus quiser. Vamos novamente para o ringue. Quem já levou três ou quatro “ko”, quem já caiu três ou quatro vezes pode perfeitamente cair uma quinta vez. Vai doer na mesma? Vai sim! A vantagem é que já apreendemos a cair melhor e em vez de batermos com a cabeça batemos apenas com as costelas, mas ficaremos sempre com algo partido, por isso dói. Se os primeiros quatro “ko’s” não nos mataram também não há-de ser este quinto a faze-lo. Alem disso, a recompensa compensa largamente o risco.
Se não quisermos aceitar os fantasmas nem quisermos jogar limpo resta-nos, de cada vez que subimos ao ringue, aceitar as vaias do público e começar a lutar em campeonatos secundários. Ir ganhando algum para sobreviver. Não levamos muita pancada, não ficamos muito negros, mas também não deixamos ninguém “ko” e sobretudo não apaixonaremos ninguém. Sobretudo não apaixonamos ninguém! Este é um preço demasiado alto a pagar por não querer levar pancada. Demasiado alto mesmo!
O arco-íris apaixona, o céu cinzento apenas deprime. O arco-íris, inspira, encanta, maravilha-nos e faz-nos suspirar. O céu cinzento limita-se a tirar-nos a vontade de sair de casa. E se não saímos de casa nada de mal nos poderá acontecer, mas andaremos deprimidos e acabrunhados. A satisfação de um suspiro é impagável, vale por mil “ko”.
Os fantasmas não existem, as coisas não ressuscitam depois de as matarmos, portanto, resta-me não matar a minha capacidade de surpreender, não ter medo de levar pancada e nunca deixar de tentar imitar o Cinderela Man (ver link), os seus ideais e motivos.
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O teu post fez-me vir à memória uma palavra:resiliência.Essa caracteristica tão em vias de extinção, pois que qualquer problema é digno de um prozac,vamos lá agora chatear-nos a tentar resolve-lo,nã.
ResponderEliminarArregaçar mangas e bora enfrentar a vida ,ir ao tapete e voltar a erguer-nos, mesmo a sangrar por todo o lado.E sim, ter a capacidade de esticar ao limite e voltar a ter a mesma forma q dantes.Talvez um pouquinho mais lasso o nosso elástico,mas só um nadinha.
E sobretudo, continuar a ter doçura e bondade pelos outros q não têm culpa q algo nos tenha estirado ao limite.
E q bom ter alguém amigo,como tu,q se lembra de nós,e nos ajuda a voltar a levantar do ring.; )
De q adianta
o "de q adianta" foi mesmo sem querer lol
ResponderEliminarSorriso rasgado...
ResponderEliminarO autor.