quarta-feira, janeiro 25

Em cavalo dado não admite, burro, ir montado.


A cavalo dado não se olha o dente!!! Diz o povo na sua enorme sabedoria. Normalmente sou acérrimo defensor destes ditos simples mas tão cheios de propriedade. Porém, hoje, esta noite, defenderei a excepção em detrimento da regra. Não concordo com o povo! Ou melhor, gostaria de partilhar outros pontos de vista que hoje me ocupam o espírito.

A cavalo dado não se olha o dente porque não se valoriza o animal. Nada tem a ver com o facto de nos sentirmos mal agradecidos ou indelicados por colocarmos defeito em algo que nos foi ofertado. Tem apenas a ver com a desvalorização com que de imediato carregamos o pobre bicho apenas porque nada nos custou, não matamos por ele, não passamos por cima de ninguém para o ter ou não o arrancamos a ferros de alguém depois de anos de mendigagem.

Esta constatação leva-me a duvidar doutra verdade universal apregoada pelos mais católicos. “Tudo o que deres ser-te-á retribuído em dobro!” Disse um dos apóstolos ou talvez tenha até sido o próprio JC. Para o caso não é relevante. Ao olhar macro sociológico esta afirmação poderá até fazer todo o sentido. Posta em prática faria, certamente, com que um bocadinho de céu baixasse à terra ou ficasse, pelo menos, mais fácil de alcançar. Tudo isto é muito bonito e comovente e no meu íntimo, utopicamente, acredito nele. Mas, a meus olhos ressalta, no entanto, uma frase com ligeira modificação e com um nível de multiplicação substancialmente maior. “… Tudo o que sonegares ser-te-á dado cem vezes mais!” Digo eu, mordendo a língua de desgosto por dize-lo.

Ansiamos por receber, por partilha, por ser bem tratados, mas, simplesmente, não o permitimos porque não valorizamos e com isso não queremos nem sabemos ser bem tratados. É mais fácil fazer um elogio que recebe-lo, é mais fácil amar que ser amado, é mais fácil dar que receber. É, também, demasiado fácil sentirmo-nos objecto de hipotética ajuda, ter a necessidade de fazer sozinho, não porque privilegiemos a independência mas, apenas, porque o ego se sobrepõe à razão e com facilidade fere um coração. Admiramos e sabemos que as equipas capazes de grandes feitos são as que têm jogadores medianos per si mas prodigiosos enquanto equipa. Todavia, todos jogamos ou queremos jogar em equipas de vedetas. O mero lampejo de precisão do outro afigurasse-nos um sufoco e um fardo cem vezes mais pesado que a completa solidão. Contudo quando ela chega saímos disparados em busca de um qualquer que nos faça parecer em companhia.

Talvez a frase que melhor nos explica seja: “ Em cavalo dado não admite, burro, ir montado”. Calimero dixit.

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