Quando vemos alguém caminhar para um precipício ou à beira dele a nossa primeira reacção é impedir a pessoa de o fazer. Explicar-lhe que é perigoso e que nada vale esse risco. É o nosso instinto de sobrevivência transvestido de paternalismo que nos leva a tomar essa atitude. É obvio que se gostamos muito não queiramos que essa pessoa se magoe. Também não é menos líquido a necessidade que todos sentimos de dar conselhos. Espalhando a nossa verdade como se ela fosse absoluta e assim cumprindo um dos desígnios da nossa vida terrena. Escrever um livro ou vários através da oralidade. Perpetuamos a nossa existência cada vez que pensamos estar a ajudar os outros com conselhos não pedidos. Mais não estamos a fazer que tentar impor ao mundo as nossas ideias ou filosofia. Aconselhar é, portanto, um acto puramente egoísta.
No entanto por mais argumentos que apresentamos para convencer alguém de que o caminho não é por ali, de que o precipício lhe pode causar graves danos, de que está a proceder mal, a única resposta que obteremos, por vezes não verbalizada é certo, será uma rotunda negativa aos nossos conselhos. Essa nossa atitude protectora e directiva não é diferente de manter um pássaro numa gaiola apenas para nosso bel-prazer. Preocupamo-nos com a felicidade e o bem-estar do pássaro ou com o nosso prazer por o ouvir cantar? Podemos até dar-lhe alpista de ouro que nunca gostaremos dele a sério e não passaremos de inseguros egoístas.
Gostar realmente muito de alguém é algo de dificuldade extrema. Por isso só amamos uma, duas ou três vezes se formos muito sortudos. Apenas temos três ou quatro amigos se formos afortunados e se aceitarmos o esforço do constante cativar. Mas esta dificuldade advêm sobretudo da necessidade de deixarmos essa pessoa amada, a amizade também é amor, fraternal, mas ainda assim amor, caminhar para o precipício sem que lhe digamos “…não vás por ai!”. De facto se amarmos mesmo devemos até empurrar um pouco a pessoa para o precipício, assegurando-nos claro está que existe uma rocha saliente ou um ramo de árvore onde essa pessoa se possa agarrar na queda e evitar ferimentos mortais. Caso não exista essa rocha ou ramo de árvore devemos cavar na escarpa para construir esse amparo. Mas sem que nunca o nosso amigo(a), ou amado(a) saibam que o fizemos.
Claro que o ramo de árvore ou a saliência na escarpa não nos garantem 100% de segurança de que não percamos a pessoa. A hipótese de a pessoa os falhar na queda existe e é substancial. Por outro lado se a pessoa ao cair se segurar no ramo ou na saliência e tudo correr bem terá crescido e apreendido. Também esse facto nos pode levar à perda da pessoa. Mas amar verdadeiramente é mesmo isso, é regar quando a planta é pequena, é fazer o outro crescer mais do que nós próprios, é criar um filho e aceitar que um dia ele seguirá a sua vida e nós nunca lhe cobraremos nada. Amar é aceitar o caminho do outro, mesmo que seja diferente do nosso; abrir os braços e aperta-lo contra o nosso peito se por ventura o reencontrarmos. É aceitar caminhar por atalhos para poder caminhar lado a lado.
Sabe-se que se ama quando aguentamos o aperto no peito de ver o outro cair e se preciso for o (a) empurramos um pouco.
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