Dou alvíssaras a quem deste aperto no peito me aliviar.
Aperta o vazio, aperta o abandono, aperta o silencio destas paredes há muito sonhadas , mesmo sem o saber, e precipitadamente erguidas. Aperta a saudade, aperta o tapete que foi puxado e me deixou sem terra firme, aperta o investimento falhado, aperta o medo, aperta o espelho, aperta a grandeza do sofá e o desaparecimento da preocupação com a escolha da cor branca, aperta a nudez que frequentemente o habitava e que hoje não passa de recordação, aperta o meu colo vazio e agora inútil, aperta o colo que para mim já não existe, aperta o imenso espaço da fria cama, aperta o fogão que está de férias, aperta a magreza do frigorifico, aperta o ninho comprado, e não feito ramo sobre ramo, e que por isso agora se vê desprovido de propósito, aperta a cegueira que me trouxe este aperto, aperta a culpa que não deixa de me atormentar, aperta a desilusão, aperta a fuga de quem partiu sem olhar para trás, aperta o ciúme, aperto-me eu na agonia daquilo a que não consigo deixar de tomar como meu fracasso.
Alquimistas haverá que mil soluções terão para aliviar o meu aperto, mas aperta também ter de me socorrer deles.
Aperta a simples conversa de café, o constatar de que outros de semelhantes apertos carpem. Aperta o conforto advindo dessa partilha de experiencias que em mim apenas encontra um egoísmo autista e uma imensa necessidade fugir daquele sítio e daquelas pessoas, cuja companhia, noutros tempos e em tempos futuros me trariam/trarão prazer.
Aperta a inquietude constante, a necessidade de mudar de sítio, sabendo que, apenas, enquanto ocorre a mudança amainará o aperto. Aperta saber que quando chegarmos a outro sítio a inquietude voltará.
Aperta cada dia que passa e o aperto não diminui, aperta o turbilhão de emoções, apertam as dúvidas sobre sentimentos jurados. Aperta o medo de ficar sozinho, aperta a consciência de termos alinhado por baixo
Aperta o lento passar do tempo que tudo deveria acalmar. Aperta o ódio que não se manifesta, apertam as lágrimas que não caiem, aperta o mirrar do ego sem que sejamos capazes, nem tenhamos qualquer vontade, de estancar esse encolher.
Aperta o que a tua partida quebrou dentro de mim, aperta não saber ainda a dimensão do estrago causado e aperta a certeza de que, mesmo todo negro e partido, se entrares pela porta serás recebida com um quente abraço.
Aperta ter de seguir em frente, estar já a continuar a carregar a albarda que a vida nos dá. Mas sobretudo o que mais aperta é não conseguir deixar de continuar em frente, porque o meu intimo assim mo impõe e a sociedade o ratifica.
“Tudo chega a que sabe esperar” diz um grande amigo. Mas será que tudo passa a quem de igual modo souber esperar?
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