segunda-feira, junho 27

A PEDIDO

Todos os escritos deste blog são aquilo a que vulgarmente podemos chamar por “estados de alma”. São confissões e desabafos atirados para esta tela em branco. Nem sempre são inspirados e quase nunca são inspiradores. Assim está a alma do autor. Fazendo uma analise data vs conteúdo consigo perceber que, apesar de ainda muito centrado em mim me tenho vindo a distanciar nos últimos tempos.

Recorrendo a uma imagem diria que sou um barco que esteve no meio duma borrasca imprevista ou ignorada, que agora começa a amainar, permitindo-me avaliar estragos e navegar com menos sobressalto.
Procuro agora um porto onde possa repor mantimentos e fazer as reparações necessárias. Haverá de certeza peças que não se conseguiram reparar na totalidade, e muito menos substituir, mas com alguma paciência, imaginação e muita super cola 3 tudo se resolverá, por agora.

O porto esta já à vista, já lhe sinto o cheiro há vários dias. Um odor a serenidade que me é trazido pelos ventos que, sendo, ao mesmo tempo que são portadores de tão consolador odor, também me afastam do porto, pois sopram em sentido contrário e eu estou estranhamente lento no manejar das velas. Parece ter-se apoderado de mim uma nostalgia entorpecedora que me lenifica os movimentos, deixando-me privado da destreza que me faria levar facilmente ao porto.

Esta luta interior dura já há vários dias e de alguma forma tem-me ocupado os pensamentos. Tento decifrar a origem deste querer adiado; que camisa de forças é esta que a mim mesmo vesti? Ainda tenho mantimentos, é certo! O barco está estável e sem perigo de afundar, mas nada consigo racionalizar para este querer adiado.

Ouso afirmar que passamos 99% da vida a complicar, invertendo assim a bela simplicidade que é constituinte principal da própria vida. Não me baseio em nenhum estudo, sondagem ou qualquer dado científico para afirmar este número, opino apenas, convicto da minha assertividade. Vou mais longe e assumo que este próprio escrito é um claro exemplo que ratifica a minha opinião. Ventos contrários? Odor a serenidade? Nostalgia entorpecedora? Mero fumo para distrair do essencial. Não rumo ao porto porque o arranjo do barco não duraria mais de um par de dias a compra de mantimentos ocuparia, no máximo, outro e depois seria preciso, apenas, definir um novo rumo e zarpar.

Busílis da questão elevado ao quadrado encontrado: “…definir novo rumo e zarpar…” Dactilografar esta fase é fácil pô-la em pratica é de dificuldade aterradora para muitos de nós, marujos de destinos de ocasião.

Aqui termina o estado de alma e começa a reflexão que me foi pedida por um bom amigo. Perante decisões somos muitas vezes acometidos da nostalgia entorpecedora, somos muitas vezes impelidos a criar fumo que nos turve a visão. E tudo isto porque, temos mantimentos, provavelmente já pouco frescos, mas ainda comestíveis. O nosso barco tem rombos mas mantêm-se a flutuar sem aparente dificuldade dada a calmaria que reina no mar. Assim sendo para quê desfraldar as velas, ajustar o mastro, e navegar contra o vento quanto bolinar é bem mais simples?

A bolinar devemos chamar alinhar por baixo. Aos mantimentos que nos restam devemos chamar sopa dos remediados ou contentamento dos espoliados de sonhos. Ao barco que, apesar de danificado, flutua na calmaria das águas, devemos chamar vistas curtas ou palas para os olhos.

Alinhar por baixo não é mais que bolinar, bolinar não passa de um enorme saco de desculpas frouxas, a frouxidão é fumegar o destino e confiar no destino é, não mais que, enganar a sorte, fugindo-lhe, tal como se foge da estucada dos cornos do boi. Ignorando que a melhor defesa é encara-lo, esperar o impacto e agarra-lo pelos cornos até que se canse de nos sacudir e, cansado, baixe a cabeça, permitindo a nossa fuga tranquila e segura.

Bem sei que não podemos ir a todas as pegas, por vezes temos de repousar, assumir o bolinar como nosso guia e aceitar sempre o bem que qualquer sorte nos traga. Mas bolinar toda a vida inquieta o espírito, transformando-o num gordo matador de sonhos.

A verdadeira questão que a cada momento nos devemos colocar é: Quantos sonhos matei para chegar aqui? Há alguns sonhos que pouca falta nos fazem, mas a maioria é muito importante e, uns poucos, são pedras angulares que nunca podem ser desfeitas sob pena de implodir o nosso ser.

Um ser implodido não morre, continua a habitar o saudável corpo, com a pequena diferença de, em vez de ser elemento gerador de energia revitalizadora do corpo, se transformará no seu principal sugador. Depois, tudo depende de quanta energia tínhamos acumulada, da nossa capacidade de dormir muitas horas e de como conseguimos ser zombies nas restantes sem que os outros percebam.

Afinal, os zombies metem medo, meu caro amigo!!!

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