As pessoas são giras, complicadas, surpreendentes por isso preferimo-las a animais. Não é que não gostemos de animais mas, efectivamente, preferimos pessoas. Se eu tivesse um animal seria um cão grande de pêlo branco, com um pipo na coleira de nome Leão. Mas nunca o teria para substituir alguém, ou porque alguém me desiludiu e o Leão já mais faria tal coisa. Do Leão espera-se fidelidade das pessoas espera-se lealdade.
Preferimos pessoas a animais por causa da parte complicada das pessoas. A complicação é fascinante, faz passar do riso ao choro em segundos, faz-nos ir do inferno ao céu, num ápice, e voltar á terra aos trambolhões. Impérios foram destruídos, imperadores assassinados e casais desavindos por mera complicação. Outras pessoas, igualmente complicadas, sonharam a lua e foram, imaginaram quimeras e nasceu a torre Eiffel, o canal da mancha e as torres gémeas que foram depois destruídas por pessoal complicado.
Comparado com isto um animal fica necessariamente a perder, pois nada mais nos oferece do que fidelidade, dedicação incondicional, lambidelas carinhosas, alegria pela nossa chegada, satisfação incomensurável pelo simples biscoito oferecido, enfim, nada de tão fascinante e imprevisível como uma pessoa complicada.
Gostamos mais de umas pessoas que de outras consoante o grau de complicação. Aliás, poderia dividir as pessoas em três categorias baseado na complicação.
Temos os amordaçados, pejados e indecisos que são aqueles que não fazem porque fazer é complicado e por outro lado o facto de não fazer torna-lhes a vida complicada. Os passivo-complicados portanto.
Os desastrados, inseguros e inconsolados formam o segundo grupo. Para estes complicar o fácil é palavra de ordem e se não houver um certo grau de dificuldade na coisa simples, esta é desvalorizada. A estes apelido de ávidos pela complexidade.
Aqueles fascinados pelas entrelinhas, que dizem por obséquio em vez de por favor, cuja inteligência superior faz com que 2 mais 2 possam não ser 4, pois duvidam da convenção que assim o determinou. Estes são os pseudo complicados.
Eu sou um adepto ferrenho dos pseudo complicados, surpreendem-nos do alto do pedestal com metáforas inusitadas, mensagens encapuçadas e ilações recriminatórias. Capazes de endeusar um simples ditado popular destituindo-o da simples sabedoria e cobrindo-o de significados inesperados que, aparentemente, só estão ao alcance da compreensão advinda do seu complicado ser. É de facto complicado não gostar de semelhantes personagens.
Eu bem que gostava de puxar a brasa á sardinha dos animais, mas a sua simplicidade deixa-me completamente desarmado de tenazes. Como se pode valorizar um “rom rom” quando do outro lado temos a sublime complicação do racional. Já ouvi histórias de animais que salvaram os donos, não os abandonando na necessidade ou indo em busca de socorro. Mas que fascínio têm isso perante uma resposta “…é complicado!” atirada de sobrolho franzido por entremeio da baforada sofrida da última passa, quando pergunto a alguém: então e tu e a fulana x, como vai isso? - “…é complicado!”. Se eu falasse a linguagem de cão e fizesse a mesma pergunta ao animal este responderia com um simplório “… gosto dele/dela…”
Que piada tem isso quando comparado com a baforada sofrida? Nenhuma!
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