sábado, novembro 26

DIAS QUE VALEM A PENA


Há dias que valem a pena. Por nada de especial e por tudo. Por um olhar o céu e fixar uma estrela abandonando os olhos na negra imensidão, sarapintada de luzinhas que nos atraem ao infinito São uns segundos é certo. Mas tempo suficiente para nos amolecer a alma, descomprimir os músculos e deixar cair a armadura. Sim valeu a pena por aqueles instantes onde o sabor da passa no cigarro se mistura com a satisfação de devorar aquele momento só nosso e das luzinhas. Mil pensamentos nos ocorrem, livres e desformatados. Uma última passa no cigarro que ardeu depressa de mais, um arremesso da pirisca para o canteiro, num acto de inocente e parva rebeldia que nos sabe pela vida.

Um deambular pelas divisões do ninho, ás escuras mas sabendo exactamente onde estamos e para onde vamos. Sem medo de errar, porque o que temos a perder ou a evitar mais não é que um pequeno galo na testa que chocou com a porta. Abrimos a cama, descansamos os ossos e o pensamento foge-nos para o travo daquela ultima passa. Esvazia-nos e invade-nos de tal maneira que uma fuga nua para o gélido e acariciador ar da varanda nos parece perfeitamente exequível. De tal forma que saltamos da cama e vamos, nus e descalços, satisfeitos pela pequena diabrura que a nossa ida constituiria aos olhos da nossa amada mãe.

Há dias assim, não há que esconder, recear palavras, amar ou sofrer, ocultar sentidos para no vazio, entrecortado pelo fumo, o nosso pensamento deixarmos correr.

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