quinta-feira, março 1

ATTRAVERSIAMO


“…Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

In Fernando Pessoa

Roubei este pequeno grande pensamento do, igualmente grande, Fernando Pessoa. Roubei, porque queria escrever sobre a palavra “attraversiamo” que aprendi num livro que jamais leria se alguém não me tivesse dito:

-“Attraversiamo”! Verás que é bom. Experimenta! Anda, vem conhecer também as coisas que eu gosto! São simples e despretensiosas mas também existe beleza nelas.

Não foram propriamente estas as palavras usadas, foram até bastante diferentes e de, aparente, sentido quase antagónico ao que reproduzi. Mas a intenção, essa, pode ser claramente ilustrada pelas palavras acima. “Attraversiamo” é uma corrente expressão italiana que significa; vamos atravessar. Vamos arriscar cruzar a via, descobrir a outra banda da rua. Vamos! Eu acompanho-te, não te deixarei só! Ousa deixar essas confortáveis roupas já enformadas pelo teu corpo e vem experimentar outras cores. Vem, será uma descoberta guiada! Estarei contigo.

A beleza do “Attraversiamo” está no enormíssimo conteúdo incorporado na singeleza e vulgaridade da expressão. Está no desafio à reflexão sobre o simples. Em não aceitar o óbvio sem saber porquê, voltando, assim por momentos, a ser criança saboreando a sábia riqueza da inocência. Na descoberta guiada e na reconfortante certeza de que venha o que vier estará alguém, a pessoa, connosco. Não precisa fazer nada de extraordinário, basta estar lá e já nos estará a prestar o mais valioso serviço a que alguma vez tivemos direito. Estar lá, acompanhar-nos pelos caminhos, passadeiras, cruzamentos ou passagens de nível é simplesmente impagável.

“…É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos…”
Grandes mudanças ocorrem na natureza quando dois simples e minúsculos átomos colidem. Não é preciso mover mundos e fundos para atingir a felicidade e manter a câmara de combustão em funcionamento. Basta ir ajustando, ser inquieto, aceitando a quietude como resultado de um contínuo processo de mudança. No entanto, ser estatua, por mais imponente e robusta que seja, será sempre mais perigoso que ser um pequeno e insignificante caracol. Ser lebre é bonito, elegante e emocionante, mas é sol de pouca dura pois a lebre facilmente descura, consentindo ao caracol chegar primeiro à meta.


Tudo isto e muito mais está englobado na minha forma de entender o “attraversiamo”.

5 comentários:

  1. Anónimo03:00

    O livro de que falas parece-me tentador. Afinal qual e o título ?

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  2. Anónimo09:49

    Amosiatravesso!
    "Azul" ;)

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  3. frapiment10:53

    Impoe-se uma questão que travessia queres fazer e com quem?

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